Estudo revela responsabilidade de bancos europeus na desflorestação na Amazónia

por RTP
Ueslei Marcelino - Reuters

Bancos e instituições financeiras britânicas investiram mais de dois mil milhões de dólares em empresas alimentares brasileiras que estão ligadas à desflorestação na Amazónia. Uma investigação publicada esta quinta-feira revela que a nível global, três gigantes alimentares receberam um apoio financeiro de 12,6 mil milhões de dólares.

Milhares de hectares da floresta da Amazónia são abatidos todos os anos para a criação de gado e, em seguida, fornecimento de carne às empresas alimentares brasileiras.

Uma investigação conjunta do jornal britânico The Guardian e das organizações Unearthed e Bureau of Investigative Journalism veio revelar pormenores sobre este ciclo que envolve instituições britânicas.

De acordo com o estudo, bancos e instituições do Reino Unido forneceram mais de dois mil milhões de dólares em apoio financeiro a gigantes alimentares como a Minerva, a segunda maior exportadora de carne bovina do Brasil e a Marfrig, a segunda maior empresa de processamento de carnes. Para além disso, detinham dezenas de milhões de dólares em ações na JBS, uma das maiores indústrias alimentares do mundo.

As três empresas estão ligadas à desflorestação substancial nas suas redes de fornecimento, embora defendam que estão a trabalhar para monitorizar os seus fornecedores e mitigar os riscos”, sublinha a investigação.

Revelando números concretos, o estudo divulga que, de acordo com os dados financeiros de 2013 a maio de 2019, o grupo britâncio HSBC subscreveu 1,1 mil milhões de dólares em títulos para a Marfrig e 917 milhões para a Minerva. Possuíam ainda três milhões de dólares em ações na JBS.

Já a multinacional britânica Schroders possuía 14 milhões de dólares em títulos da Marfrig e 12 milhões em títulos da Minerva.

Para além destas empresas, o estudo revela também que outras instituições europeias forneceram um apoio adicional de 2,1 mil milhões de dólares. O banco Santander subscreveu 1,4 mil milhões em títulos nas três gigantes alimentares brasileiras e o Deutsche Bank investiu 69 milhões de dólares em títulos da Marfrig e emprestou à JBS mais 57 milhões de dólares.

A nível global, as três empresas alimentares brasileiras receberam um apoio financeiro contabilizado em 12,6 mil milhões de dólares.

Crise de desflorestação
A desflorestação na Amazónia aumentou acentuadamente durante a crise da Covid-19, à medida que o Governo brasileiro é acusado de usar a pandemia para legalizar a desflorestação e ameaçar os indígenas. Em abril, a área desflorestada na Amazónia foi de 529 quilómetros quadrados, o que corresponde a um aumento de 171 por cento em relação ao período homólogo do ano passado.

Ativistas acreditam que se irá observar uma destruição nunca antes vista das áreas protegidas, principalmente se for aprovado um projeto de lei que promove a ocupação e desflorestação da floresta amazónica. O presidente brasileiro Jair Bolsonaro já demonstrou apoio a este diploma que legaliza a ocupação informal de terras pertencentes ao Estado, atribuindo título de propriedade mesmo a quem as ocupe em violação da lei.

Perante este anúncio, 41 grupos económicos, que incluem os maiores grupos de distribuição alimentar britânicos, ameaçaram boicotar os bens produzidos no Brasil. À Bureau of Investigative Journalism, algumas das instituições financeiras revelaram que estavam em negociações com as três companhias alimentares devido à desflorestação e que poderiam reconsiderar o seu apoio caso não observassem progressos neste âmbito.

Em comunicado, a JBS confirmou ter bloqueado milhares de fornecedores diretos por violarem as regras relativas à desflorestação e garantiu estar a trabalhar com o Governo brasileiro em soluções para monitorizar fornecedores indiretos.

Já a Minerva diz que “não existem dados e estatísticas acessíveis e credíveis sobre toda a cadeia de monitorização de gado” no Brasil e que está a avaliar uma nova ferramenta para controlar fornecedores indiretos.

Também a Marfrig disse estar a desenvolver uma ferramenta para combater o risco de comprar a fornecedores indiretos que não consegue monitorizar.

“Precisamos de muito mais responsabilidade e transparência nas nossas cadeias de fornecimento e nas atividades de investimento de empresas britânicas no exterior”, disse à Unearthed Kerry McCarthy, deputada trabalhista.

“Nenhuma instituição financeira do Reino Unido deveria lucrar com a destruição de florestas tropicais ou outros habitats preciosos no Brasil ou em qualquer outro lugar”, defende Caroline Lucas, deputada do Partido Verde.

“Para que as reivindicações do Governo à liderança global no clima tenham algum significado, ele deve parar de fechar os olhos aos vínculos entre os bancos do Reino Unido e a desflorestação, introduzindo uma regulamentação forte, penalidades severas e normas rigorosas sobre a transparência pública total de questões ambientais e sociais de todos os investimentos”, sublinhou a deputada.
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