Etiópia. ONU alarmada com impacto dos combates sobre os civis no norte do país
O Alto-Comissário das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Volker Türk, manifestou hoje alarme face ao impacto sobre os civis dos combates no norte da Etiópia entre o Governo federal e grupos armados.
Ataques aéreos das Forças de Defesa Nacionais da Etiópia (ENDF), alguns realizados com recurso a `drones` (aeronaves não-tripuladas), atingiram alegadamente cinco escolas em Tigray a 22 de setembro, provocando mortos e feridos.
Um ataque com morteiros a 23 de setembro na cidade de Kobo, em Amhara, alegadamente levado a cabo pelas ENDF, também resultou em mortes de civis.
"Estou profundamente alarmado com a recente escalada de hostilidades entre as forças do Governo etíope e a Frente de Libertação do Povo do Tigray [TPLF] e seus aliados, bem como com os impactos nefastos que esta já está a ter sobre os civis. Todas as partes devem apaziguar urgentemente as tensões e evitar um regresso à guerra em grande escala", declarou Türk, citado em comunicado.
O responsável apelou a todas as partes para que tomem todas as medidas necessárias com vista a garantir a proteção efetiva dos civis contra danos, bem como a permitir um acesso humanitário seguro e desimpedido a todos os que dele necessitam.
A `internet` e as telecomunicações encontram-se alegadamente interrompidas ou inoperacionais em Mekelle, a capital de Tigray, e em partes de Amhara, havendo também registo de estradas bloqueadas em zonas de Afar.
As viagens aéreas foram significativamente afetadas em Tigray após a suspensão dos voos da Ethiopian Airlines para Mekelle, Axum e Shire, na sequência da tomada dos três aeroportos pela TPLF na quarta-feira.
"As interrupções da `internet` e das telecomunicações no contexto da crise em curso são muito preocupantes, uma vez que correm o risco de limitar a capacidade dos civis para fugir para zonas seguras e de impedir os trabalhadores humanitários de alcançar os que necessitam de ajuda", afirmou Türk.
O responsável lamentou a campanha em curso de recrutamento forçado em massa de civis, incluindo crianças, levada a cabo pela TPLF em todo o Tigray, bem como os homicídios, tortura, detenção arbitrária, deslocação forçada e outras represálias contra aqueles que resistem ao recrutamento e respetivos familiares.
Registam-se também relatos, que a ONU classifica de preocupantes, de alistamento obrigatório arbitrário por parte das forças governamentais.
O Alto-Comissário da ONU para os Direitos Humanos instou os Estados com influência sobre as partes a tomarem medidas para ajudar a alcançar uma cessação das hostilidades e renovou ainda a disponibilidade do seu gabinete para continuar a apoiar os esforços de paz coordenados da ONU na Etiópia, em estreita articulação com a União Africana, sediada no país.
A analista Jalale Getachew Birru disse hoje à agência Lusa que "a raiz do conflito" na Etiópia está no descontentamento da TPLF em relação ao executivo e o seu desejo de voltar a governar.
A especialista da organização Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) lembrou, em entrevista à Lusa por videochamada, que a TPLF dominou politicamente a Etiópia durante décadas até à chegada ao poder do atual primeiro-ministro, Abiy Ahmed, em 2018.
A situação é muito tensa há vários meses em Tigray, estando tropas federais e locais concentradas junto às fronteiras deste estado, fronteiriço com a Eritreia e o Sudão.
Sobre os relatos de suspensão das comunicações desde a madrugada de hoje, em Tigray, a analista da ACLED disse que não há provas de que tenha sido uma ação do Governo.
"Não temos informação de que o Governo federal tenha interrompido a empresa de telecomunicações", disse, adiantando ainda que os dados disponíveis indicam ter sido a TPLF a cortar o serviço de `internet` em Tigray para limitar a partilha de informações com Adis Abeba.