Etiópia. Origem do conflito está no desejo da TPLF voltar ao poder diz analista

Etiópia. Origem do conflito está no desejo da TPLF voltar ao poder diz analista

 A analista Jalale Getachew Birru explicou hoje que "a raiz do conflito" na Etiópia está no descontentamento da Frente de Libertação do Povo do Tigray (TPLF) em relação ao executivo e o seu desejo de voltar a governar.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Reuters

A especialista da organização Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) explicou, em entrevista à Lusa por videochamada, que a TPLF dominou politicamente a Etiópia durante décadas até à chegada ao poder do atual primeiro-ministro, Abiy Ahmed, em 2018.

"A TPLF costumava ser o partido dominante (...) desde os anos [19]90 ou 80. (...) E desde que o atual Governo assumiu o poder - graças à própria TPLF, que fazia parte da coligação Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF) que elegeu o atual primeiro-ministro - ele, o primeiro-ministro, começou a implementar políticas e regulamentos que não eram apoiados pela TPLF", contextualizou.

Segundo a analista, a contestação aprofundou-se e desencadeou um ciclo de conflitos que culminou numa guerra aberta em Tigray, no Norte, entre 2020 e 2022 e na subsequente erosão do Acordo de Pretória, assinado, na altura, para pôr fim ao conflito neste que é o segundo país mais populoso de África.

No entanto, ressalvou, apesar do recrudescimento da violência e da recente formação de uma coligação anti-governamental - a Aliança das Forças dos Povos Etíopes para a Sobrevivência, que junta a milícia Fano, em Amhara, o Exército de Libertação Oromo (OLA), a Frente de Libertação do Povo de Tigray (TPLF), a Frente de Libertação Nacional de Ogaden (ONLF), a Frente Revolucionária de Unidade Nacional Afar, o Movimento de Libertação do Povo de Benishangul e o Movimento Democrático do Povo Gumuz -, afastou o cenário de desintegração estatal.

"Se vamos ver uma fragmentação? Não me parece. Esse é o desejo que alguns atores têm para o país, mas não creio que vá haver uma fragmentação da Etiópia, incluindo do Tigray", sustentou, sublinhando que a TPLF já não beneficia do apoio generalizado de outrora junto das populações locais.

A investigadora apontou ainda a existência de pressões regionais e internacionais nos bastidores do conflito, destacando alinhamentos estratégicos que envolvem atores vizinhos, mas frisou que os grupos opositores carecem de capacidade militar coordenada para derrubar o Governo central federal.

Concretamente, segundo Jalale Getachew Birru, o Sudão, a Eritreia e o Egito formam um grupo e a aliança "interna pela sobrevivência" etíope, anunciada domingo, é apoiada pela Eritreia.

"Embora a Eritreia não o assuma oficialmente, temos várias evidências de que os eritreus estão a apoiar o armamento interno. E a mão invisível por trás da Eritreia são o Egito e o Sudão", explicou.

Além disso, prosseguiu, existe um movimento chamado Tsimdo - uma palavra tigrínia, cujo idioma se fala na Eritreia e em Tigray - que "começou como uma reconciliação, entre aspas, na fronteira entre o Tigray e a Eritreia e mais tarde evoluiu para uma relação tática entre a TPLF e o Governo eritreu".

Por outro lado, "o movimento Tsimdo realizou oficialmente a sua conferência pública em Porto Sudão, no Sudão, por volta de 16 ou 17 de maio e nessa conferência a maioria dos membros da aliança `pela sobrevivência` estava presente", o que, para a especialista, é mais uma prova do envolvimento dos atores externos.

A situação é muito tensa há vários meses em Tigray, estando tropas federais e locais concentradas junto às fronteiras deste estado, fronteiriço com a Eritreia e o Sudão.

Há relatos de suspensão das comunicações desde a madrugada de hoje, em Tigray, mas a analista da ACLED disse à Lusa que não há provas de que tenha sido uma ação do Governo.

"Não temos informação de que o Governo federal tenha interrompido a empresa de telecomunicações", disse, adiantando ainda que os dados disponíveis indicam ter sido a TPLF a cortar o serviço de `internet` em Tigray para limitar a partilha de informações com Adis Abeba.

 

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