EUA disponíveis para intervenção militar em caso de ataque chinês a Taiwan

por Andreia Martins - RTP
Questionado pelos jornalistas se os EUA estariam disponíveis a envolver-se militarmente para defender Taiwan, Joe Biden respondeu: "Sim, esse foi o compromisso que assumimos". Jonathan Ernst - Reuters

O presidente norte-americano afirmou esta segunda-feira que o país está pronto para responder pela via militar a uma eventual incursão chinesa na ilha de Taiwan. Em Tóquio, no decurso da viagem dos últimos dias pela Ásia, Joe Biden reafirmou que esse é o "compromisso" firmado pelos Estados Unidos. Por sua vez, Pequim pede aos EUA para que "não subestimem" a determinação chinesa na proteção da sua soberania.

Em conferência de imprensa ao lado do primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, na primeira visita ao país asiático desde que assumiu a presidência dos Estados Unidos, Joe Biden distanciou-se aparentemente da posição de ambiguidade que tem sido tradição da diplomacia norte-americana em relação à questão de Taiwan.

Questionado por um jornalista se os Estados Unidos defenderiam Taiwan em caso de ataque da China, Joe Biden não deixou margem para dúvidas ou segundas interpretações. “Não quis envolver-se militarmente no conflito na Ucrânia por motivos óbvios. Está disponível a envolver-se militarmente para defender Taiwan se tal for necessário?”, perguntou o repórter.

“Sim. Esse foi o compromisso que assumimos. Concordámos com a política de uma China Única. Assinámos todos os acordos a partir desse ponto. Mas a ideia de que [Taiwan] pode ser tomado à força (…) não é apropriada”, afirmou o presidente norte-americano, considerando que não esperava qualquer incursão chinesa nesse sentido.

A política de “uma China Única”, reconhecida por Washington, assume a posição de Pequim em como Taiwan é parte da China. No entanto, os Estados Unidos nunca reconheceram oficialmente o domínio chinês sobre o território insular com 23 milhões de habitantes.
A ilha de Taiwan, localizada a cerca de 170 quilómetros da China territorial, rejeita as reivindicações de soberania chinesa desde o fim da guerra civil de 1949.

Território autónomo por mais de 70 anos, sede do governo nacionalista que fugiu do continente após a derrota frente aos comunistas, liderados Mao Tsé-Tung, Taiwan continua a ser o foco de maior discórdia entre Pequim e Washington, até porque os Estados Unidos são um dos principais fornecedores de armas ao governo de Taipei.

O jornal The New York Times escreve esta segunda-feira que a declaração inequívoca de Joe Biden “surpreendeu alguns membros da sua própria administração” que estavam presentes na conferência, até porque os Estados Unidos têm mantido, nas últimas décadas, uma posição vaga a indefinida sobre que decisões seriam tomadas na eventualidade de uma invasão chinesa da Taiwan.

A agência Reuters conta mesmo que alguns dos conselheiros presidenciais de segurança nacional que assistiam à conferência de imprensa “mexeram-se nos seus lugares” e “inclinaram a cabeça para baixo” enquanto Joe Biden falava deste assunto em concreto.

Pouco depois da conferência de imprensa, a Casa Branca procurou suavizar o significado das palavras do presidente norte-americano. “Como o presidente disse, a nossa posição não mudou. Ele [Joe Biden] reiterou o nosso compromisso para com a Polícia de Uma China e o nosso compromisso co a paz e estabilidade no estreito de Taiwan. Também reiterou o nosso compromisso (…) de dar a Taiwan os meios militares para se defender”, disse um responsável da Casa Branca aos jornalistas.
EUA "não devem subestimar" a China
A resposta chinesa às declarações de Joe Biden não se fez esperar. Pequim alertou esta segunda-feira que o presidente norte-americano não deve “subestimar a firme determinação” da China em “proteger a sua soberania”.

“Pedimos aos Estados Unidos que evitem enviar sinais errados às forças de independência” de Taiwan, afirmou o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Wenbin, em declarações aos jornalistas.

Em Taiwan, as palavras do líder norte-americano foram bem recebidas. Em comunicado citado pela agência Reuters, o Ministério dos Negócios Estrangeiros agradeceu a Joe Biden por “reafirmar o compromisso de segurança” com a ilha. Taipei acrescenta que irá continuar a reforçar a defesa e a cooperação com países como os Estados Unidos e o Japão.

Esta não é a primeira vez que Joe Biden rompe com a tradição de “ambiguidade estratégica” e de equidistância em relação a uma possível intervenção militar em Taiwan. Em outubro último, o presidente norte-americano tinha afirmado o “compromisso” dos Estados Unidos no sentido de proteger o território.

A tensão entre Washington e Pequim sobre a questão de Taiwan é ainda mais palpável no contexto da invasão russa da Ucrânia, que se iniciou há três meses. O próprio presidente norte-americano já comparou a situação no leste da Europa à discórdia entre China e Taiwan, afirmando que um conflito entre os dois territórios iria afetar toda a região.

Joe Biden sublinhou a importância de manter e reforçar as sanções ocidentais aplicadas à Rússia ao longo dos últimos meses, no contexto da guerra na Ucrânia. “Se estas sanções não continuarem, que sinal estaremos a enviar à China sobre o preço a pagar caso tente assumir o controlo de Taiwan pela força?”, questionou.

“Os Estados Unidos estão comprometidos, assumimos um compromisso, apoiamos a política de uma China Única, (…) mas isso não significa que a China possa entrar e recorrer à força para assumir o controlo de Taiwan”, afirmou recentemente o presidente norte-americano.

De resto, o primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, alertou para o perigo de um conflito asiático semelhante ao que se passa no leste europeu.

O governante defendeu que “qualquer tentativa unilateral de alterar o status quo pela força, como acontece na agressão russa contra a Ucrânia, nunca poderá ser tolerada no Indo-Pacífico”.

Na conferência de imprensa, ao lado de Joe Biden, Kishida insistiu que a posição de Washington e Tóquio sobre a situação de Taiwan “permanece inalterada”.
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