EUA e Reino Unido fecham portas a mulheres do Estado Islâmico

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A maioria dos países tem-se mostrado relutante em aceitar cidadãos que tenham aderido ao grupo Estado Islâmico
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Os Estados Unidos e o Reino Unido querem retirar a cidadania a duas mulheres que, no mesmo ano, fugiram para a Síria para se juntarem ao autoproclamado Estado Islâmico. As jovens, que dizem arrepender-se da decisão, acabaram por ser mães e aguardam agora, em campos de refugiados, o repatriamento para os países de origem, que se recusam a recebê-las por motivos de segurança nacional.

A Administração Trump garante que Hoda Muthana, mulher de 24 anos que cresceu no Estado norte-americano do Alabama e que, há quatro anos, viajou até à Síria para se juntar ao grupo Estado Islâmico, não poderá voltar a entrar nos Estados Unidos.

“Dei instruções ao secretário de Estado Mike Pompeo, e ele está totalmente de acordo, para que não seja permitido o regresso de Hoda Muthana ao país!”, anunciou Donald Trump no Twitter.


Pompeo tinha já afirmado que Muthana não era uma cidadã dos Estados Unidos e que não poderia regressar, mas a família e o advogado da jovem insistem que esta tem cidadania norte-americana.

“Hoda Muthana tem um passaporte válido e é uma cidadã. Nasceu em Hackensack, Nova Jérsia, em outubro de 1994, meses depois de o seu pai ter deixado de ser diplomata” do Iémen, frisou o advogado.Quando, aos 20 anos, Muthana decidiu sair do país para se juntar ao autoproclamado Estado Islâmico na Síria, mentiu à família dizendo que ia a um evento universitário na Turquia.

“Não podemos chegar a um ponto em que simplesmente retiramos a cidadania às pessoas que quebram a lei”, defendeu, acrescentando que Donald Trump está a “tentar fazer jogos com os cidadãos norte-americanos” depois de, recentemente, a sua Administração ter pedido aos países europeus que aceitem e julguem em tribunal os membros do Daesh.

Muthana, que ao chegar à Síria queimou o passaporte e fez apelos em redes sociais para que os militantes radicais do Estado Islâmico matassem norte-americanos, diz agora arrepender-se de se ter juntado ao grupo e pediu desculpa por ter promovido os ideais do mesmo.

“Espero que a América não pense que sou uma ameaça e que me aceite como um ser humano normal que foi manipulado”, confessou a jovem em entrevista à estação ABC News.

Muthana tem um filho de 18 meses e diz ter-se rendido às forças curdas, estando atualmente num campo de refugiados no norte da Síria.
“Cometi um erro”
Também Shamima Begum, que nasceu no Reino Unido e tem agora 19 anos, viu a cidadania britânica ser-lhe retirada depois de, em 2015, ter saído de Londres para se tornar jihadista.

Begum era ainda adolescente quando abandonou o país e agora quer regressar para junto da família. Diz ter conseguido fugir do grupo radical e está, desde então, num campo sírio de refugiados, onde há poucos dias teve um bebé.

“Esperava que o Reino Unido compreendesse que cometi um erro, um erro muito grande, porque era nova e ingénua”, declarou Begum, acrescentando que pensou várias vezes em fugir mas que tal era quase impossível, pois “matavam quem o tentasse”.

De acordo com o Ato Britânico de Nacionalidade de 1981, uma pessoa pode perder a cidadania caso tal leve ao “bem público”, desde que possa passar a ter cidadania de outro país.

Neste caso, o Reino Unido considerou que Begum poderia ser considerada cidadã do Bangladesh visto que esse é o país de onde a mãe é natural.
São muitos os casos de mulheres que saíram jovens dos países de onde são naturais para se juntarem ao Daesh, acabando depois por se casar com militantes radicais e ter filhos.

O ministro bangladeshiano dos Negócios Estrangeiros avançou, no entanto, que a jovem não é cidadã desse país, nunca fez qualquer pedido para obtenção de dupla nacionalidade e nunca visitou o Bangladesh.

O secretário de Estado britânico para os Assuntos Internos, Sajid Javid, relembrou que a cidadania pode ser retirada em “circunstâncias extremas”, nomeadamente quando alguém “vira as costas aos valores fundamentais e apoia o terrorismo”.

A maioria dos países por todo o mundo tem-se mostrado relutante em aceitar cidadãos que tenham aderido ao grupo Estado Islâmico. Apenas alguns, entre os quais a Rússia, Indonésia, Líbano e Sudão têm aceitado receber de volta estas pessoas.

Um relatório recentemente divulgado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos avança que o Governo norte-americano está a encorajar outros países a acelerar os esforços para repatriar antigos membros do Daesh de modo a que estes possam lá ser julgados.
Jihadistas portuguesas
Augusto Santos Silva afirmou, na segunda-feira, que os casos de cidadãos portugueses ligados ao jihadismo são “muito complexos”, uma vez que o Estado deve proteger os nacionais mas não quer no país “pessoas que possam constituir uma ameaça ao modo de vida, aos valores e às pessoas dos portugueses”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros sublinhou o caso de duas cidadãs portuguesas que estão retidas num campo de refugiados na Síria depois de terem sido capturadas pelas forças curdas ao grupo Estado Islâmico, ao qual dizem ter-se juntado involuntariamente por seguirem familiares.

“Sim, nós temos informações sobre a presença de pessoas que estão ou estiveram ligadas a combatentes do Daesh na Síria. Algumas dessas pessoas têm descendentes a seu cargo, crianças, e tem-nos chegado informação sobre condições de privação que facilmente se imaginam vividas por essas pessoas e crianças”, declarou.

“Como cidadãs portuguesas, essas pessoas têm direito a proteção consular de Portugal”, explicou, frisando que “essa proteção tem de ser exercida tendo em conta (…) a variável relativa à segurança nacional portuguesa.

Tópicos:

Cidadania, Estado Islâmico, Mulheres, Reino Unido, Repatriamento, Síria, Estados Unidos,

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