EUA e Taiwan selam acordo comercial de 500 mil milhões e reduzem tarifas a Taipé

O novo acordo comercial foi selado na passada quinta-feira e prevê investimento de 500 mil milhões de dólares, que se divide em duas partes: 250 mil milhões em investimento direto e outros 250 mil milhões em garantias de crédito por parte do Governo taiwanês. O valor total será canalizado para o setor tecnológico.

RTP /
Foto: Daniel Ceng / Anadolu via AFP)

O “consenso geral” aconteceu depois do Presidente norte-americano Donald Trump ter, no ano passado, ameaçado impor tarifas de 32 por cento sobre exportações taiwanesas, agora reduzidas para 15 por cento.

A redução das tarifas para 15 por cento é feita em troca de 250 mil milhões de dólares por parte de Taiwan, em novos investimentos na indústria tecnológica norte-americana, com especial incidência no setor dos semicondutores e da inteligência artificial (IA), segundo a agência Associated Press (AP).

O entendimento reforça a estratégia económica do Presidente norte-americano Donald Trump, baseada no uso de tarifas como alavanca para atrair produção industrial para os Estados Unidos (EUA).

O acordo surge na sequência do plano tarifário apresentado por Trump em abril do ano passado, destinado a corrigir desequilíbrios comerciais, e junta-se a entendimentos semelhantes firmados com a União Europeia e o Japão.Washington assinou ainda uma trégua comercial com duração de um ano com a China, procurando estabilizar as relações com a segunda maior economia mundial.

Inicialmente, a administração norte-americana tinha fixado tarifas de 32 por cento sobre os produtos taiwaneses, posteriormente reduzidas para 20 por cento. Com o novo acordo, a taxa baixa para 15 por cento, alinhando Taiwan com outros parceiros da região Ásia-Pacífico, como Japão e Coreia do Sul.

Em comunicado, o Departamento de Comércio dos EUA destacou que o entendimento estabelece uma “parceria económica” para a criação de parques industriais de “topo” em solo norte-americano, com o objetivo de reforçar a produção nacional. “Um acordo comercial histórico que impulsionará um enorme retorno da produção do setor de semicondutores dos Estados Unidos para os EUA”, descrito pelo Departamento de Comércio dos EUA e citado pela agência AP.

O Governo de Taiwan confirmou os principais termos do entendimento, sublinhando que o chamado “modelo taiwanês” será transferido para os EUA, ajudando a expandir a competitividade global da indústria tecnológica da ilha e a aprofundar a cooperação estratégica entre as duas economias.

Segundo o Poder Executivo de Taiwan, os 250 mil milhões de dólares serão canalizados para setores como semicondutores - materiais de componente único como silício e germânio -, aplicações de IA e energia.

Além do corte tarifário, o acordo prevê isenções específicas para determinadas importações taiwanesas, como medicamentos genéricos e componentes de aviação. Os produtores de semicondutores que invistam nos EUA beneficiarão ainda de tratamento tarifário favorável, incluindo isenções condicionais.

A reação de Pequim foi crítica. Um dia anterior ao anúncio do acordo, a China - que reivindica Taiwan como parte do seu território - classificou o acordo como um “economic plunder (desvio ou exploração indevida de recursos)” dos Estados Unidos contra a ilha.
“A IA é real”
Embora o comunicado lançado por Washington não mencione explicitamente empresas, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) surge como principal beneficiária e motor do investimento.

A TSMC, a maior fabricante mundial de semicondutores - fabrica ‘chips’ usados nos produtos da Apple e Nvidia -, reportou um lucro líquido de 506 mil milhões de novos dólares taiwaneses (cerca de 15 mil milhões de euros) no trimestre de outubro a dezembro de 2025, com a receita a subir 21 por cento, para quase 30 mil milhões de euros, segundo a agência AP.

A empresa prevê elevar ainda mais o seu orçamento de investimento para este ano. “Esperamos que os nossos negócios sejam sustentados pela forte procura contínua das nossas tecnologias de processo de ponta”, afirmou Wendell Huang, diretor financeiro da TSMC, acrescentando que os gastos serão “significativamente maiores” nos próximos três anos.

A TSMC é atualmente a empresa mais valiosa do continente asiático.
Prometeu investir aproximadamente 140 mil milhões de euros (165 mil milhões de dólares) nos EUA e comunicou que está a acelerar a construção de novas fábricas no Arizona - além das oito instalações que já prometeu abrir nos EUA - reforçando o papel central dos EUA na cadeia global de produção de chips avançados, de acordo com a agência AP.
“Se o Supremo Tribunal decidir contra os EUA... estamos lixados!”
A nova política comercial dos EUA pode cair por terra, caso a justiça norte-americana determine que imposição de tarifas comerciais impostas por Washington é legal “e impeça Trump de impor unilateralmente tarifas contra outros países”, de acordo com o Jornal de Negócios.

A decisão está prevista ser tomada no decorrer da próxima semana e será tomada à luz da lei americana de 1977 “que dá ao Presidente dos EUA poderes de decisão em situações de emergência”. 

Na rede social Truth Social, o presidente norte-americano escreveu, esta segunda-feira, que “...por outras palavras, se o Supremo Tribunal decidir contra os EUA nesta questão de Segurança Nacional, estamos lixados!”.

O acordo entre Washington e Taipé - sendo consolidado- reforça a aposta dos EUA em atrair investimento estratégico, reforçar a segurança das cadeias tecnológicas e posicionar os EUA no centro da próxima vaga de crescimento impulsionada pela inteligência artificial.
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