EUA. Farmacêuticas norte-americanas limitam venda e entrega de pílulas do dia seguinte

por Andreia Martins - RTP
Andrew Kelly - Reuters

A farmacêutica norte-americana CVS anunciou na segunda-feira a imposição de um limite de venda de pilulas do dia seguinte para evitar uma situação de eventual escassez do fármaco. Já a Walgreens indicou que vai deixar de entregar o método contracetivo em casa dos clientes de forma temporária. As decisões das duas farmacêuticas surgem dias depois do Supremo Tribunal dos Estados Unidos ter revogado o direito ao aborto.

Perante o aumento da procura, pelo menos duas farmacêuticas norte-americanas estão a limitar a venda e a entrega da pílula do dia seguinte. A farmacêutica CVS marcou como limite máximo a compra de três pílulas do dia seguinte por transação para evitar a escassez do fármaco nas lojas.

Afirmam que há ainda “grandes stocks”, mas que “para assegurar um acesso justo e disponibilização permanente nas lojas, limitamos temporariamente a três” o número de caixas que podem ser adquiridas por transação.

Por sua vez, a Walgreens, outra grande cadeia de farmácias, disse na segunda-feira que as pílulas do dia seguinte continuam disponíveis nas lojas e que as compras ainda não estão a ser limitadas. No entanto, a empresa tomou a decisão de interromper temporariamente a entrega destes medicamentos ao domicílio.

“A Walgreens continua a conseguir responder à procura nas lojas, estamos a trabalhar para reabastecer o stock online para o envio ao domicílio”, afirmou um porta-voz do grupo ao New York Times.

Por sua vez, a cadeia de supermercados Kroger reconheceu que o stock de pílulas do dia seguinte está nesta altura reduzido e o site da Amazon, que também vende online vários métodos contracetivos de emergência, continua a disponibilizar os mesmos, mas indica que grande parte das entregas só serão possíveis na segunda quinzena de julho.

De acordo com NYT, a venda destes métodos contracetivos já tinha aumentado significativamente desde o início de maio, quando a imprensa norte-americana difundiu o projeto de lei dos juízes do Supremo Tribunal para revogar a lei Roe vs. Wade.

Agora, com a materialização da revogação o direito ao aborto na última sexta-feira, é esperado um novo pico na procura destes métodos contracetivos. A pílula do dia seguinte é diferente das drogas abortivas, que terminam a gravidez, e deve ser tomada dias após uma relação sexual desprotegida de forma a prevenir a fecundação.

Nos Estados Unidos, existem dois tipos de pílula do dia seguinte: a “Plan B”, que está disponível em farmácias e drogarias, e a “Ella”, que requer uma prescrição médica e pode ter efeito até cinco dias após o contacto sexual. Estas pílulas, métodos contracetivos de emergência são distintas das pílulas abortivas, usadas em mais de metade dos abortos recentes nos Estados Unidos, e que também tiveram um aumento exponencial de procura desde sexta-feira.

Ao contrário do aborto, a utilização de métodos contracetivos como este continua a ser legal nos Estados Unidos, mas vários especialistas alertam que os legisladores poderão aproveitar a proibição do aborto para limitar o acesso a métodos contracetivos.

De acordo com o instituto Guttmacher, vários estados norte-americanos permitem que médicos ou farmacêuticos se recusem a prescrever ou entregar contracetivos aos utentes.

Clarence Thomas, juiz conservador do Supremo Tribunal norte-americano, defendeu aquando da própria argumentação que reverte a lei Roe vs. Wade que os magistrados devem agora reconsiderar “todos os precedentes substantivos” decididos por aquela corte.

Menciona, especificamente, o caso Griswold vs. Connecticut, de 1965, que declarou como inconstitucional a proibição de contracetivos, ou a lei Obergefell vs. Hodges, em 2015 que estabeleceu o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, por enquanto, os restantes juízes conservadores do Supremo distanciam-se desta opinião.
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