EUA. Nas intercalares joga-se o futuro da democracia

O "futuro da democracia" vai estar em jogo nas intercalares norte-americanas de terça-feira, disseram à Lusa eleitores democratas, ao serem desafiados a explicar aos portugueses a importância destas eleições.

Lusa /

Numa longa fila para assistir a um comício de que juntou, em Filadélfia, o Presidente norte-americano, Joe Biden, e o antigo chefe de Estado Barack Obama, Stephanie, uma gerente administrativa, de 68 anos, afirmou que o resultado da noite eleitoral de terça-feira terá uma "importância gigantesca", para os "Estados Unidos e para o mundo".

"A democracia está em perigo e tudo pode mudar. Esta eleição é muito importante e temos de fazer com que as pessoas que normalmente não fazem o esforço de votar, votem. É um privilégio... e vamos perdê-lo se não lutarmos por ele", avaliou a sexagenária.

Para os democratas, defender a democracia significa manter o ex-Presidente Donald Trump e apoiantes republicanos longe do poder, lembrando que o bilionário recusou aceitar os resultados das presidenciais de 2020, o que levou os seguidores a invadirem o Capitólio, em 06 de janeiro de 2021, para tentar reverter uma alegada "fraude eleitoral".

Esse ponto de vista tem sido reforçado pelas principais figuras democratas, como Biden e Obama, que têm sublinhado que a democracia não pode ser dada como garantida no país.

Biden tem ido mais longe e criticado fortemente o movimento "MAGA" - baseado no icónico `slogan` de campanha de Trump `Make America Great Again` [Tornar a América Grande de Novo] -, opondo-se ao "fanatismo cego" de alguns seguidores do republicano, que classificou de "ameaça" aos Estados Unidos.

No momento em que as campanhas para as intercalares entram na reta final, uma nova preocupação surgiu no horizonte para os democratas, na sexta-feira, quando a imprensa norte-americana noticiou que Trump pretende voltar a candidatar-se à Casa Branca, em 2024.

"Estou apavorada com essa possibilidade. Esse é o pior cenário. Deixa-me, literalmente, com dores no estômago só de imaginar. Não podemos deixar isso acontecer. Trata-se realmente de salvar a democracia. Não é uma hipérbole. É a realidade. Eu apoio e amo o meu país, quero que continue a ser o país em que acredito. É por isso que estou aqui a defender a democracia", disse Stephanie.

Para Maria, de 50 anos, a democracia norte-americana está em risco por causa de Trump, que considerou "perigoso e mentalmente instável", lembrando as investigações políticas e criminais que o republicano enfrenta, nos casos do ataque ao capitólio e dos documentos confidenciais que guardava ilegalmente na mansão em Mar-a-Lago (Florida).

Apesar de não estar a concorrer a nenhum cargo este ano, é notório o legado que Trump deixou junto dos Republicanos.

Dos quase 570 candidatos republicanos às intercalares de 08 de novembro, mais de metade colocaram em dúvida a legitimidade da vitória de Joe Biden ou negaram mesmo que tenha sido eleito justamente.

Uma análise recente do jornal Washington Post indicava que a maioria dos candidatos que rejeitam o resultado de 2020 vai mesmo vencer esta eleição, depois de terem visto as suas posições extremas legitimadas com vitórias sucessivas nas primárias

A ideia de que o futuro da democracia norte-americana está em jogo é transversal a qualquer idade dentro do partido democrata.

O estudante de direito Julien, de 26 anos, tentou explicar aos portugueses o ponto mais importante destas intercalares: "a democracia está em perigo porque os republicanos já mostraram que não vão aceitar uma derrota. Então, se lhes dermos o controlo, eles vão arruinar a nossa democracia".

E acrescentou: "os republicanos querem tirar o nosso direito de escolha, querem destruir a Segurança Social e o Medicare [sistema público de seguros de saúde], dos quais famílias como a minha dependem".

Por toda a cidade de Filadélfia, a maior do estado da Pensilvânia e palco de algumas das mais importantes decisões da história do país, como a adoção da Declaração de Independência e da Constituição, é possível encontrar cartazes com a mensagem: "Vote! Defenda a democracia no dia 08 de novembro".

A Pensilvânia é um estado fundamental para determinar o controlo do Senado (câmara alta do Congresso) e é uma das poucas oportunidades dos democratas para `roubar` um lugar republicano na noite de terça-feira.

As intercalares vão determinar qual o partido que vai controlar o Congresso nos dois últimos anos do mandato de Biden, estando também em jogo 36 governos estaduais e vários referendos locais sobre questões-chave, incluindo aborto e drogas leves.

Em disputa estarão todos os 435 lugares na Câmara dos Representantes (câmara baixa do Congresso), onde os democratas detêm atualmente uma estreita maioria de cinco assentos, e ainda 35 lugares no Senado, onde os democratas têm maioria apenas graças ao voto de desempate da vice-Presidente norte-americana, Kamala Harris.

As eleições podem não apenas mudar a cara do Congresso norte-americano, mas também levar ao poder governadores e autoridades locais apoiantes de Donald Trump.

Uma derrota muito pesada nas próximas eleições pode complicar mais o cenário de um segundo mandato presidencial para Joe Biden.

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