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EUA. Ordem de despejo contra família negra faz surgir barricadas em Portland

EUA. Ordem de despejo contra família negra faz surgir barricadas em Portland

Parecia a simples execução de uma ordem do tribunal, para despejar uma família negra da casa onde vive há cerca de 70 anos. A reacção da comunidade surpreendeu tudo e todos, ao montar um perímetro de defesa dos moradores, improvisando barricadas que a polícia não conseguiu, até agora, fazer retirar.

RTP /
Confrontos de manifestantes antiracistas com a polícia de Portland em julho de 2020 Caitlin Ochs, Reuters

A família Kinney tinha vindo instalar-se em Portland durante a Segunda Guerra Mundial para trabalhar nos estaleiros navais a norte da cidade e nas indústrias militares e, como muitas outras famílias negras, deslocadas nessa grande migração interna em busca de emprego, ficara instalada num bairro destinado ao pessoal das indústrias de guerra.

Mas, em 1948, uma cheia do rio Columbia levou grande parte dos moradores desse bairro a mudarem-se para a localidade de Albina, também em Portland. Desde então várias gerações da família Kinney têm vivido na mesma casa.

O New York Times, que investigou todos os antecedentes da história, relata que os pais do actual William Kinney, terceiro do mesmo nome, hipotecaram a casa, ainda nos anos 1950, para pagarem a fiança e livrarem o filho de uma pena de prisão a que fora condenado devido a um acidente rodoviário.

Utilizando essa hipoteca, promotores imobiliários começaram desde 2016 a pressionar a família para que vendesse a casa. O bairro de Albina tinha-se tornado entretanto uma zona chique, em rápido processo de gentrificação, com pubs e centro comerciais, e a casa da família Kinney, que pôde permanecer hipotecada durante várias décadas, tornou-se apetecível para os especuladores.

Tendo-se recusado a vender a casa, a família Kinney foi sofrendo pressões cada vez mais intensas. A família acabou por ser expulsa de casa em setembro último, mas começou então um processo de sucessivas manifestações a apoiá-la e a reclamar o seu direito de voltar à casa que foi da família durante 70 anos.

O presidente da Câmara de Portland, Ted Wheeler, defendeu a ordem de despejo do tribunal, dizendo que se trata de um documento legal e ameaçando os manifestantes com medidas repressivas. Segundo Wheeler, estes manifestantes estão a criar uma terra de ninguém à volta da casa dos Kinney, tratando de impedir que a lei possa vigorar nessa área. Acusou também os manifestantes de terem erguido barricadas no bairro e de manterem esconderijos de armas nas imediações da casa.

Ontem, quinta-feira foram de facto erguidas barricadas, com sinais de trânsito, contentores de lixo, portas de madeira e objectos de contraplacado, que impediam a circulação automóvel nas redondezas. Os manifestantes organizaram a permanência nas barricadas, em torno de fogueiras, para se defenderem contra o frio.

Num tweet, Wheeler disse que autoriza "a polícia de Portland a usar todos os meios legais para acabarem com esta ocupação ilegal". E acrescentou: "Não haverá nenhuma zona autónoma em Portland". Ajudantes do xerife do condado de Multnomah estiveram na casa às 5h da manhã e efectuaram seis detenções, mas não conseguiram fazer retirar as barricadas.

Um dos ocupantes das barricadas citados pelo New York Times, disse que a luta para impedir a expulsão de moradores negros nos bairros que entretanto se tornaram mais caros faz parte da luta para defender as vidas negras e indígenas que encheu as ruas dos Estados Unidos durante quase todo o ano de 2020. E acrescentou: "Este tem sido um bloqueio pacífico. A única coisa que tem sido violenta é a força bruta usada pela polícia de Portland e pelos xerifes do condado de Multnomah".

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