EUA. Três em cada cinco americanos querem acabar com o Colégio Eleitoral

Falta pouco para se saber qual dos candidatos às presidenciais dos Estados Unidos consegue alcançar os 270 votos que garantem a liderança na Casa Branca - votos esses que representam membros do chamado Colégio Eleitoral. Há, porém, quem considere este sistema com dois séculos antiquado e desprovido de sentido, podendo originar resultados injustos. Mais precisamente, três em cada cinco americanos querem ver uma mudança.

Joana Raposo Santos - RTP /
Atualmente 61 por cento dos americanos querem reformar ou acabar com o Colégio Eleitoral. Hannah Mckay - Reuters

O tema do Colégio Eleitoral tem-se tornado cada vez mais controverso ao longo dos últimos anos. Os críticos deste sistema defendem que o mesmo não segue os critérios democráticos essenciais a um sistema eleitoral, que deve ser neutro e não favorecer qualquer partido, candidato ou região.

De facto, nos Estados Unidos, a vitória de um presidente está condicionada pelas regiões. Em cada Estado vence ou o candidato democrata ou o republicano. E, mesmo que a vitória a nível estadual seja conseguida por apenas uma décima de vantagem, é atribuído ao vencedor o número total de membros do Colégio Eleitoral desse Estado – que é definido consoante o número de senadores e de legisladores na Câmara dos Representantes -, contribuindo para que o mesmo alcance os tais 270 necessários à vitória final.

Por essa razão, são muitos os que defendem a abolição do Colégio Eleitoral em favor de uma votação popular nacional, na qual venceria o candidato com mais votos na totalidade do país. Desde que o sistema desse Colégio foi adotado, no início do século XIX, foram já quase 800 as tentativas para lhe introduzir emendas ou para o extinguir. Três em cada cinco americanos não concordam com o Colégio Eleitoral, segundo uma sondagem recente. Saiba neste artigo como funciona este sistema de votos.

Segundo uma sondagem de setembro da empresa Gallup, atualmente 61 por cento dos americanos querem reformar ou acabar com o Colégio Eleitoral. Dos inquiridos na sondagem, foram os eleitores democratas (89 por cento) e os independentes (68 por cento) que mais se mostraram a favor dessa ideia, enquanto os republicanos disseram preferir manter o sistema atual (apenas 23 por cento dos republicanos inquiridos disseram não concordar com o sistema).

Quem discorda deste sistema de votos tende a defender que o mesmo é antiquado e faz pouco sentido. Em 2016, a vitória presidencial de Donald Trump marcou a quinta vez que um presidente dos Estados Unidos foi eleito apesar de perder o voto popular – que, nessa ocasião, foi para Hillary Clinton.

Na realidade, quando os eleitores norte-americanos vão às urnas, não votam diretamente no candidato que querem ver na Casa Branca. Votam, em vez disso, nos membros do Colégio Eleitoral que, em cada Estado, representam o candidato em questão. Membros esses que fizeram previamente um juramento segundo o qual garantem votar, eles próprios, no candidato que representam, procurando elegê-lo presidente.
A matemática do Colégio Eleitoral
Críticos frisam ainda que, matematicamente, é possível a um candidato vencer as eleições com apenas 22 por cento dos votos populares. Em Wyoming, por exemplo, o voto de um eleitor tem quase quatro vezes mais poder do que o voto de um eleitor na Califórnia, explica o Washington Post.

Outro argumento utilizado pelos opositores deste sistema é que o mesmo leva os candidatos a ignorarem, quase por completo, os Estados que não sejam decisivos para os resultados eleitorais, como conta a revista Jacobin.

Durante as primeiras nove semanas da campanha eleitoral de 2020, por exemplo, a maioria de visitas presidenciais ocorreu em apenas 12 Estados, num total de 50, segundo dados da CNN.

Além disso, 90 por cento dos gastos em propaganda eleitoral televisiva foram distribuídos por apenas seis Estados no mês de outubro: precisamente os chamados Swing States (Estados decisivos, por tanto votarem democrata como republicano) da Pensilvânia, Flórida, Wisconsin, Michigan, Arizona e Carolina do Norte.

Há ainda quem sinta que o seu voto foi desperdiçado quando vê vencer o candidato que não ganhou os membros do Colégio Eleitoral desse Estado.

O próprio presidente Trump já reconheceu alguns problemas deste sistema. “Os republicanos têm uma desvantagem. Perdem Nova Iorque, Illinois e Califórnia ainda antes de [as eleições] começarem”, chegou a referir. O mesmo se aplica ao Partido Democrático, que em muitos Estados tradicionalmente não é eleito e já conta, à partida, com a repetição desses resultados eleição após eleição.
PUB