Europa, Japão e China em competição na criação dos super-colisores de partículas

Descobrir como é feito o universo que nos rodeia sempre foi uma curiosidade do homem e da comunidade científica - motivo que levou o Comité Internacional Cientifico a promover várias iniciativas nessa busca. O CERN, em Genebra, deu o primeiro passo e construiu um colisor que já mostrou ao mundo a "partícula de Deus". Japão e China também querem mostrar que dominam a ciência do universo e prometem mais e maiores colisores.

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O primeiro grande projeto nesta área foi o acelerador de partículas (LHC – Large Hadron Collider) em Genebra, na Suíça, onde foi descoberto o bosão de Higgs, batizadoa como a "partícula de Deus".

Esta descoberta permitiu analisar e completar com maior precisão a definição da matéria convencional de tudo o que podemos ver e tocar no nosso dia-a-dia: as proteínas e genes que nos mantém vivos, bem como os milhões de planetas e estrelas que existem no universo.

Mas se o leitor pensa que com este aparelho científico e tecnológico se ficou a saber muito do universo, desengane-se.

E experiência e descoberta do bosão cobre apenas cinco por cento da matéria que existe em todo o cosmos.

Razão pela qual a comunidade científica quer mais e novos projetos como o LHC.

ILC - International Longevity Center (Japão)
Os japoneses mestres na inovação querem demonstrar que também eles têm capacidade para ver o que existe lá fora, e já em andamento está um novo colisor de partículas, de nome ILC (Centro Internacional de Longevidade).

A proposta nipónica é produzir partículas de matéria escura, que responde a 24 por cento do universo, nunca observado, mas o projeto enfrenta cortes financeiros significativos, devido ao desvio de fundos para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.



Recentemente o Comité Internacional para Futuros Aceleradores (ICFA), do qual o Japão faz parte, esteve reunido. Aí, o representante nipónico, Masanori Yamauchi, diretor-geral do laboratório de física de partículas de Japão (KEK), apresentou o problema aos restantes Estados membros.

O plano passa pela construção de apenas “meio acelerador” e por poupar cerca de 40 por cento do custo, ou seja, 8000 milhões de euros.



O Japão neste projeto conta com mais 16 países, mas acredita poder iniciar negociações com outros países para pagar a sua construção, embora ainda existam muitas dúvidas.


China quer construir acelerador de partículas com 100 quilómetros
Entre tantas dúvidas, a China não está com meias medidas e diz que vai avançar com um plano ambicioso que ameaça arrebatar ao projeto europeu CERN a liderança na área física de partículas.

O investigador e físico Gao Jie, do Instituto de Física de Alta Energia, explica que a China tem o intuito de construir um acelerador de partículas - um acelerador à semelhança do CERN, mas este com uma circunferência subterrânea de 100 quilómetros, ou seja, cerca de quatro vezes maior do que o LHC.



O projeto, segundo Gao Jie, cobriria uma área maior do que a ocupada pela cidade de Madrid. "A primeira fase do projeto, consiste num colisor de elétrons e pósitrons, a entrar em funcionamento até 2030", diz Gao. Depois com o mesmo túnel toda a estrutura irá acomodar um colisor de prótões em 2050.

No país mais populoso da Terra, construir o maior colisor de partículas será bastante acessível, diz Gao: "O custo per capita é ainda mais barato do que o primeiro colisor de energia construído na China na década de 1980", explica.

O físico chinês espera que o Governo se empenhe seriamente na aplicação dos fundos na concepção deste projeto a partir do próximo ano.

Gao Jie sublinha ainda que este projeto deve envolver a comunidade internacional, apesar de a aposta ser principalmente chinesa: "Acho que a China pode ser responsável por 70 por cento do projeto," diz.

Já com esse objetivo a comunidade cientifica e física esteve reunida para analisar as várias valências que os vários projetos podem fornecer à ciência.

CERN continua na senda das descobertas primordiais
O CERN, em Genebra, não ficou de braços cruzados depois da grande experiência que deu origem ao bosão de Higgs.

A comunidade cientifica encarregue do complexo continua a avançar com os seus próprios estudos "de aceleradores lineares e circulares", diz Fabiola Gianotti, diretora-geral do laboratório.


Fabiola Gianotti física de particulas do CERN - Foto: Reuters

Fabiola Gianotti perante as “intenções” chinesas comenta muito diplomaticamente: "É muito bom ver que há interesse na criação de aceleradores de partículas, em várias regiões do mundo," refere a física de partículas do CERN.

A última esperança da Europa nesta corrida será a constante capacidade de inovação.

O veterano físico Lynn Evans, diretor da colisão linear do CERN e um dos pais do LHC, é muito cético relativamente à potência asiática para desenvolver suas próprias novas tecnologias, o que o leva a afirmar: "Levámos 15 anos para construir o LHC. Construir um acelerador de 100 quilómetros até 2050? Vamos esperar para ver”, remata.

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