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Europeus dizem não a Trump, mas sim às suas ideias

Europeus dizem não a Trump, mas sim às suas ideias

Na política, tal como no supermercado, há logótipos que nos fazem fugir. O de Donald Trump é agora um deles. É como aquela etiqueta que se esconde dentro do casaco.

Um Olhar Europeu com RTBF /
Evelyn Hockstein / Reuters

Em Itália, porém, a Presidente do Conselho, Giorgia Meloni, apostou muito nessa relação. 

Única dirigente europeia a estar presente na tomada de posse do Presidente americano e líder orgulhosa da ponte com Trump, apresentou-se de bom grado como franquia local da Casa Branca.

Até agora, as coisas correram-lhe bastante bem. Mas o referendo sobre a reforma da justiça acabou de mudar a situação. 

Pela primeira vez, os italianos disseram-lhe "não". Não estão a "comprar" a sua cruzada populista e agressiva contra juízes acusados de serem politizados, um eco muito assertivo dos ataques de Donald Trump ao seu próprio sistema judicial.

Num país atingido pelo aumento dos preços da energia e preocupado com as tensões internacionais, a ligação a Trump já não é um ativo, é um passivo.Mesmo cenário na Eslovénia

Janez Jansa, há muito considerado a personificação local do trumpismo, acaba de ser derrotado por um primeiro-ministro liberal em fim de mandato, que estava claramente em declínio. 

A derrota foi por uma margem mínima, mas o facto mantém-se: o candidato trumpista perdeu mesmo para um adversário desgastado.

E esta pequena melodia repete-se por quase toda a Europa, com a AfD da Alemanha a distanciar-se discretamente de Trump. 

Quando apenas 15% dos eleitores ainda consideram o Presidente americano um parceiro fiável, é melhor mudar de rótulo do que afundar-se com ele.
Marca Trump tornou-se radioativa

Só o primeiro-ministro húngaro continua a apostar na sua relação especial com Trump. O vice-presidente americano é esperado em Budapeste dentro de alguns dias, pouco antes das eleições. 

Mas não é certo que isso permita a Viktor Orbán reduzir a diferença nas sondagens.

Em outro país, na Dinamarca, a primeira-ministra Mette Frederiksen integrou perfeitamente este mecanismo anti-Trump. Encostada contra a parede nas sondagens, enfrentou o plano de anexação da Gronelândia, brandido por Washington, transformando a sua recusa num momento de bravura nacional que lhe permitiu limitar os danos eleitorais. 

O seu partido social-democrata está em declínio, mas ela saiu vencedora nas sondagens. 

Em suma, estar contra Trump não é garantia de vitória, mas estar com ele é claramente um erro de cálculo.
E no entanto, o trumpismo está a varrer a Europa

No entanto, por detrás da janela partida do Trumpismo, a doutrina continua a fluir. 

Os eleitores podem evitar o vendedor, mas continuam a comprar as suas ideias.

No que diz respeito à imigração, o software trumpiano está a criar raízes na Europa. O Pacto de Asilo e Migração, que deverá entrar em vigor este verão, reforça os procedimentos nas fronteiras, aumenta o número de medidas de controlo e facilita as deportações. 

E no Parlamento Europeu, esta semana, a direita e a extrema-direita uniram forças para apertar ainda mais os parafusos, validando um regulamento que facilita a deportação de pessoas nas fronteiras e abre caminho a centros de detenção fora da UE.

Para as ONG como os Médicos do Mundo, a semelhança com as práticas do ICE, a agência federal responsável pela imigração e alfândega nos Estados Unidos, é impressionante. 

A mesma lógica, uma embalagem diferente dos métodos americanos. 

A Europa jura que se mantém fiel aos seus valores, mas as medidas que adota poderiam sair diretamente de um "Pequeno Trump" ilustrado.
Um mau embaixador mas um grande fornecedor

Quem se mostra demasiado próximo de Trump, corre o risco de levar os eleitores a fugirem como de um iogurte estragado

Mas as suas ideias estão a ser rapidamente incorporadas nos programas, desde promessas de políticas de imigração mais duras a campanhas contra os controlos e equilíbrios.

Em suma, Donald Trump pode ser um mau embaixador para os seus amigos europeus, mas é um fornecedor formidável. A Europa rejeita o homem, mas importa as suas ideias.

Olivier Hanrion / 27 março 2026 10:47 GMT

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP

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