Ex-ditador Alfredo Stroessner morre exilado no Brasil
O general Alfredo Stroessner, ditador do Para guai de 1954 a 1989, morreu hoje num hospital em Brasília, em consequência de um a pneumonia, informaram fontes hospitalares na capital brasileira.
Stroessner, que vivia exilado no Brasil desde que foi derrubado por um golpe de Estado em 1989, estava internado no hospital de Santa Luzia da capital brasileira desde 29 de Julho para ser operado a uma hérnia inguinal.
No entanto, as complicações derivadas de uma pneumonia debilitaram-lhe a saúde - emagreceu até aos 45 quilos - e obrigaram à sua transferência para a U nidade de Cuidados Intensivos, onde acabaria por morrer às 11:20 locais (15:20 e m Lisboa).
Chegado ao poder através de um golpe militar em 1954, Stroessner foi um Presidente com mão-de-ferro que acabou derrubado por um golpe de Estado depois de 35 anos conturbados.
Exilado no Brasil, a sua extradição foi reclamada diversas vezes pela j ustiça paraguaia que o queria julgar por numerosos crimes, nomeadamente centenas de desaparecimentos e assassínios de opositores.
Nascido em 1912 em Encarnação, 350 quilómetros a sudeste de Assunção, f ilho de um alemão da Baviera e de uma paraguaia, Stroessner tinha 1,90 metros e era louro e de olhos azuis, contraste enorme com a maioria da população do Parag uai, baixa, morena e de cabelo preto.
Entrou na academia militar com 17 anos, chegando a subtenente em 1932. Durante a guerra do Chaco contra a Bolívia (1932-35) foi subindo paulatinamente na hierarquia militar.
Na ditadura de Hirinio Morinigo, já como coronel, recebeu felicitações do governo por liderar a repressão durante a guerra civil de 1947.
Em 1951, torna-se Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas.
É um período conturbado da história do país, com oito governos militare s ou cívico-militares em pouco tempo.
Apesar de ser considerado partidário do governo estabelecido, Stroessne r lidera o golpe militar que derruba o Presidente Federico Chávez em 1954.
Com o apoio do Partido Colorado, consegue reformar a Constituição e apr esenta-se como candidato único à presidência em 1954 e 1958.
Até 1989, apresentou-se de quatro em quatro anos às eleições presidenci ais para renovar o seu mandato contra candidatos apresentados por uma oposição f antoche que ele controlava.
Os seus 35 anos no Governo são considerados o período mais brutal da hi stória de um país de 5,8 milhões de habitantes habituado à violência desde a sua independência, em 1811.
O célebre escritor paraguaio, Augusto Roa Bastos, apelidou-o de "tirano ssauro".
As organizações de direitos humanos acusam Stroessner de ter mandado ma tar ou fazer desaparecer mais de um milhar de opositores do regime - a oposição fala em 3.000.
De 1954 a 1989, dois milhões de paraguaios tiveram de abandonar o país por razões políticas ou económicas.
Ao mesmo tempo, Stroessner e os seus aliados enriqueciam com lucrativos negócios (tráfico de droga, contrabando de automóveis roubados ou de aparelhos electrónicos).
Muitos "investidores" estrangeiros - grandes delinquentes, ex-nazis ou colaboradores das ditaduras europeias - encontraram asilo no Paraguai de Stroess ner, que sempre recebia estes endinheirados de braços abertos.
Não só fomentou o culto da personalidade - com ruas, praças escolas e h ospitais baptizados com o seu nome -, como os historiadores lhe atribuem a criaç ão da seita político-religiosa Povo de Deus - ainda hoje existente -, de inspira ção católica, apostólica e paraguaia (e não romana), que o apresentava como envi ado de Deus.
Com a ajuda financeira dos Estados Unidos, "El Rubio" (O Louro), como e ra conhecido, começou a modernizar o país a partir de 1987 e levantou o Estado d e sítio que vigorava desde que chegara ao poder.
No final dessa década de 80, contudo, o seu regime começava a abrir fre chas, principalmente por ter ido perdendo os amigos na região, depois do fim das ditaduras no Brasil, Argentina e Uruguai.
A Igreja Católica também se encarregou de dar uma ajuda à mudança, tend o o papa João Paulo II rezado, em 1988, na capital paraguaia, pela liberalização do regime e o respeito pelos direitos humanos.
A 03 de Fevereiro de 1989, Stroessner seria derrubado através de um gol pe de Estado liderado pelo general Andrés Rodríguez, fugindo para Brasília, onde viveu exilado desde então.