Ex-ministra britânica que se demitiu contra a guerra arrasa Tony Blair em declarações à Lusa
Londres, 18 Mar (Lusa) - Clare Short, ministra de Tony Blair que se demitiu em 2003 por discordar da participação do Reino Unido na intervenção militar no Iraque, arrasou o ex-primeiro-ministro britânico em declarações à Agência Lusa, em Londres.
Ouvida pela Lusa a propósito do 5º aniversário do início da guerra no Iraque, a ex-ministra britânica do Desenvolvimento Internacional lamenta que Tony Blair tenha escapado a um "castigo eleitoral" e defende mesmo que ele devia enfrentar um tribunal internacional pela sua cumplicidade e responsabilidade no conflito iraquiano.
Faz quinta-feira (20 de Março) cinco anos que se iniciou a invasão e ocupação do Iraque por parte de uma coligação militar internacional liderada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, um conflito que levou ao derrube do regime de Saddam Hussein e à morte deste, mas que desencadeou uma espiral de violência no país que faz uma média de 20 mortes por dia desde 2003.
Os britânicos estão frustrados por o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair "não ter sido castigado nas eleições devido à invasão militar do Iraque e por existir a sensação de ter conseguido safar-se", disse à Lusa a ex-ministra Clare Short.
"Penso que se o Reino Unido tivesse despejado Blair, haveria mais o sentimento de que a questão tinha sido corrigida", explicou a ex-ministra para o Desenvolvimento Internacional.
"O que enraivece as pessoas é o sentimento de que ele conseguiu safar-se e até conseguiu ser nomeado enviado da ONU para a Paz no Médio Oriente", ironizou Short.
Célebre pelas afirmações frontais e muitas vezes opostas à política do governo de Tony Blair, que integrou desde 1997, Clare Short demitiu-se do governo em 2003 em discordância com o envolvimento britânico na guerra no Iraque.
No ano seguinte, publicou o livro "An Honourable Deception: New Labour, Iraq, and the Misuse of Power", onde expõe a sua desilusão com o processo de decisão do então governo de Blair e com os Trabalhistas, que foi premiado pelo Canal 4 como o melhor livro sobre política de 2004.
"Quando saí do governo esperava que o meu partido se organizasse e dissesse a Blair que ele tinha errado, e o mandasse embora", revelou à Lusa.
"Mas depois percebei que não iria haver nenhuma resistência no partido e cortei os meus laços", contou
Short tornou-se deputada independente em 2006 e já anunciou a intenção de não se recandidatar nas próximas eleições, em 2009 ou 2010, nas quais não afasta a hipótese de os Trabalhistas, agora de Gordon Brown, sucessor de Blair, perderem.
"O problema é que Blair nunca foi responsabilizado", vinca Short, lembrando que Blair venceu as eleições legislativas em 2005 com apenas 35 por cento dos votos (22 por cento do eleitorado total), ou seja, "65 por cento dos britânicos votaram contra ele".
Uma razão para Blair não ter sido "despejado", como foi José Maria Aznar em Espanha ou John Howard na Austrália, é que o principal partido da oposição, o partido Conservador, também apoiou a guerra, lembrou a ex-ministra.
Outro líder que, na opinião de Clare Short, "terá de assumir responsabilidades" é Durão Barroso, anfitrião da cimeira das Lages (Açores), em 2003, enquanto primeiro-ministro português, cargo que abandonou pela presidência da Comissão Europeia que actualmente exerce.
"Num sentido, os portugueses mostraram que não apoiavam aquela política" [ao elegerem o Partido Socialista nas eleições legislativas de 2005], observou.
Quando ao futuro, Clare Short não esconde que "seria bom" que Tony Blair enfrentasse um dia um tribunal internacional e respondesse pelo seu papel no conflito iraquiano.
"É improvável, mas não impossível. Olhe quanto tempo demorou até chegar a [Augusto] Pinochet!", recordou.
"Blair é relativamente jovem, mas teremos de ver o tempo passar, a comunidade internacional resolver a questão no Médio Oriente, mudar a política e voltar a respeitar a lei internacional", preconizou.
Cinco anos depois da invasão anglo-americana, a situação no Iraque "é completamente desastrosa, o país está destruído e acho que vai continuar assim durante anos", lamenta.
A alternativa, enfatiza, passa por os EUA colaborarem com a Síria e o Irão, desinstalarem as bases militares, apoiarem um governo de unidade nacional iraquiano e "procurarem uma forma responsável de retirar".
Clare Short pensa que a vontade depende de Washington e que apenas o candidato democrata Barack Obama parece demonstrar "um esforço para mudar". "Mas mesmo assim não há garantia", disse à Lusa.
"Haverá poucas mudanças se Hillary Clinton (democrata) ou Jonh McCain (republicano) forem eleitos", prognostica.