Ex-ministro brasileiro reconhece culpa na crise e aponta o dedo a Lula
O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu reconheceu hoje a sua parcela de culpa pela actual crise do Partido dos Trabalhadores (PT), mas frisou haver outros responsáveis, entre eles o presidente Lula da Silva.
Em entrevista divulgada hoje pelo jornal "Folha de São Paulo", José Dirceu afirmou não ter sido o único responsável pela definição da linha política do partido, mas negou que o presidente Lula tivesse conhecimento do "saco azul" do PT.
"O Lula tem responsabilidade política porque ele era líder do PT. Mas os graus são diferentes. Não posso atribuir a ele responsabilidade sobre o caixa dois (saco azul)", afirmou.
"Segundo Dirceu, Lula da Silva e dezenas de dirigentes importantes que hoje são presidentes de Câmaras, governadores, ministros, deputados e senadores participaram na construção de toda a estratégia política do PT.
"A responsabilidade é de todos nós", assinalou o ex-ministro, que enfrenta um processo de suspensão do seu mandato de deputado federal na Câmara por alegado envolvido no esquema do "mensalão".
O escândalo veio a público no início de Junho com as denúncias do ex-deputado Roberto Jefferson, antigo presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sobre a existência de alegados pagamentos do PT a deputados em troca de votos favoráveis ao governo ("mensalão").
Jefferson teve o seu mandato suspenso no último dia 14 e entrou na semana passada com o pedido de aposentadoria na Câmara dos Deputados.
José Dirceu alega que não há provas contra ele e insiste em que "não havia mensalão para comprar votos".
"Eram acordos eleitorais. Não havia desvio de dinheiro público", esclareceu.
O ex-ministro confessou à Folha que passa pela situação mais dura de sua vida.
"Espero que eu tenha força para sobreviver ao momento que estou vivendo", disse, garantindo que vai "continuar na luta política e social".
Questionado sobre a desilusão dos eleitores do PT que imaginavam estar a votar num partido com práticas diferentes, o ex- ministro admitiu que o partido tem de pedir desculpas ao país.
"Esse é um erro e o PT vai pagar por ele. Nós vamos ter de pedir desculpas ao país. Nós assumimos compromissos na campanha eleitoral com partidos e passámos recursos fora da prestação de contas. Há uma ilegalidade aí que vai ser punida pela Justiça", disse.
Segundo José Dirceu, o dinheiro passado aos partidos aliados vinha de empréstimos feitos pelo PT e pelo empresário Marcos Valério de Souza, acusado de ser o "homem da mala" no escândalo do "mensalão".
"As CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito) não provaram que haja dinheiro de empresa estatal desviado para o PT ou outros partidos. E nem contratos sobrefacturados. Nem dinheiro de empresas privadas. O dinheiro vem dos empréstimos", reiterou.
Os empréstimos, segundo o ex-ministro, antigo "homem forte" do governo Lula da Silva, seriam pagos pelo PT.