Ex-PR moçambicano Joaquim Chissano defende educação para a paz centrada nos jovens

Ex-PR moçambicano Joaquim Chissano defende educação para a paz centrada nos jovens

O antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano defendeu hoje, em Lisboa, a necessidade de promover uma educação para a paz centrada nos jovens, salientando que a responsabilidade da paz "pertence a todos".

Lusa / Adicionar como fonte informativa

Joaquim Chissano, Presidente de Moçambique entre 1986 e 2005, deu uma aula magistral na Universidade Europeia, intitulada "Liderança, paz e desenvolvimento -- Lições para as novas gerações", na qual abordou os grandes desafios de um mundo caracterizado pela polarização e pela fragmentação.

O antigo chefe de Estado destacou a importância de preparar líderes, salientando que uma boa liderança pode contribuir para a pacificação entre cidadãos e entre países.

Como exemplo, evocou o encontro de 06 de junho de 1974, em Lusaca, na Zâmbia, entre representantes do Governo provisório português e da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).

Na ocasião, Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros português, abraçou Samora Machel, líder da Frelimo, num gesto simbólico de aproximação entre as duas partes, no contexto das negociações que conduziriam à independência de Moçambique, proclamada em 25 de junho de 1975.

Chissano destacou também o papel da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), cuja criação demorou a avançar devido a desconfianças iniciais, mas cujos líderes decidiram ultrapassar as diferenças em prol do bem comum.

Usando o exemplo do seu país, que viveu 16 anos de guerra civil após a independência, num conflito que provocou cerca de um milhão de mortos, o antigo chefe de Estado frisou que "a paz faz-se com quem pensa diferente e até com quem foi adversário político e inimigo no campo militar".

"Como moçambicanos conhecemos o valor da paz porque conhecemos o sofrimento provocado pela guerra", continuou Chissano, apontando o longo caminho ainda a percorrer para o país ter a paz que precisa e acrescentando que a Frelimo e a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) se empenharam no estabelecimento de bases para o diálogo e para a construção da confiança.

A paz, sublinhou, não termina com a assinatura de um acordo, prolongando-se através da reconciliação.

Chissano destacou também o contributo de Portugal nas negociações entre o Governo moçambicano e a Renamo que culminou no acordo de paz assinado em Roma, a 04 de outubro de 1992, por Joaquim Chissano e pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, pondo formalmente fim à guerra civil.

Joaquim Chissano falou ainda sobre os efeitos da violência nas mulheres e nas crianças, defendendo o desenvolvimento de programas de educação para a paz, com especial enfoque nos jovens.

"É desde criança que se aprende a não usar a violência", disse o antigo presidente, considerando que é ensinando crianças a construir relações sãs que se plantam as sementes para um ambiente de paz e para aprender a conhecer a dignidade do outro.

"A responsabilidade da paz pertence a todos", destacou, salientando que o desenvolvimento não se limita à construção de estradas, pontes e edifícios, mas é também necessário garantir oportunidades para os jovens, investir em políticas de educação, promover o desenvolvimento sustentável e assegurar que as novas tecnologias são utilizadas de forma adequada.

"Os jovens não devem esperar pelo futuro para serem construtores da paz, devem começar hoje", exortou, dirigindo-se aos estudantes que encheram a sala, a quem apelou para que "não normalizem `bullying`, assédio ou racismo, não sejam espetadores indiferentes".

A sessão foi encerrada pelo Presidente da República, António José Seguro, seguindo-se a assinatura de um protocolo de colaboração entre a Universidade Europeia e a Fundação Joaquim Chissano que prevê o intercâmbio académico e a atribuição de bolsas anuais a estudantes moçambicanos em situação de maior carência económica.

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