Ex-presidente da Ucrânia jura inocência no assassínio de jornalista

O ex-presidente ucraniano Leonid Kutchma, de férias há duas semanas na estância termal checa de Karlovy Vary (oeste), jurou hoje inocência no caso do assassínio do jornalista da oposição Gueorgui Gongadzé e prometeu regressar sábado ao seu país.

Agência LUSA /

A televisão ucraniana 1+1 deu esta notícia no mesmo dia do alegado suicídio do ex-ministro do Interior ucraniano, considerado suspeito de envolvimento no assassínio de Gongadzé (Setembro de 2000).

Iuri Kravtchenko, que hoje devia depor na Procuradoria-Geral, foi encontrado morto por familiares na garagem da sua casa de campo a sul de Kiev, com dois tiros na cabeça, segundo a polícia: um entrou sob a mandíbula e saiu pelo nariz, e o outro pela têmpora direita, rebentando-lhe a nuca.

No entanto, circulam rumores de que Kravtchenko terá sido vítima de disparos de um franco-atirador e de que deixou uma nota póstuma com acusações muito comprometedoras para Kutchma.

Numa conferência de imprensa improvisada com jornalistas checos, Kutchma declarou: "Perante Deus, o povo e a minha própria consciência, juro que estou limpo".

Desde 13 de Dezembro de 2004 que Kravtchenko era seguido de perto pelas autoridades ucranianas, que o tinham proibido de abandonar o país.

Gongadzé, 35 anos, chefe de redacção do diário digital da oposição Ukrainska Pravda, desapareceu a 16 de Setembro de 2000 e, quase dois meses depois, o seu cadáver foi descoberto, decapitado, num bosque dos arredores de Kiev.

Em cassetes gravadas no gabinete presidencial antes do desaparecimento - com autenticidade confirmada por peritos norte- americanos e entregues ao actual parlamento ucraniano -, é possível ouvir uma voz muito parecida com a de Kutchma a sugerir a Kravtchenko que se desfizesse do incómodo jornalista.

Surge igualmente implicado o actual presidente do parlamento, Vladimir Litvin, na altura chefe de gabinete de Kutchma.

Em Dezembro de 2004, um dia depois da vitória presidencial de Viktor Iuchtchenko, também foi encontrado morto, com vários orifícios de balas no corpo, o ex-ministro dos Transportes Georgui Kirpa, outro fiel de Kutchma.

Na terça-feira, Iuchtchenko anunciou a detenção de três presumíveis autores do assassínio de Gongadzé. A Procuradoria-Geral adiantou que se trata de oficiais dos serviços secretos ucranianos (SBU, ex-KGB).

Na quarta-feira, o procurador-geral, Sviatoslav Piskún, assegurou que já se conhece a identidade da pessoa de quem partiu a ordem para matar o jornalista e anunciou a intimação de Kravtchenko para depor hoje.

Recentemente, Olexandr Omelchenko, presidente da comissão parlamentar que investiga nomeadamente o assassínio de Gongadzé, instou a Procuradoria-Geral a processar Kutchma e a pedir à Interpol a sua detenção na estância balnear checa.

Omelchenko chegou a exigir a detenção de Kravtchenko para evitar que se matasse, ou pudesse ser assassinado, sendo apresentada a sua morte como um suicídio.

Agora, à posição de Omelchenko somaram-se os comunistas, que consideram Kutchma "o máximo representante da política criminosa dos últimos anos" no país.

Estando em perigo a "velha guarda" ucraniana, o politólogo local Oles Donily concluiu: "Se eu fosse procurador-geral punha imediatamente Kutchma sob escolta, por recear que o próximo cadáver seja o seu".

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