Exército espanhol enviado a Ceuta para controlar "avalanche" de imigrantes

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
Jon Nazca - Reuters

Várias unidades do Exército espanhol foram enviadas para Ceuta na manhã desta terça-feira para controlar as ruas da cidade, após cerca de seis mil migrantes terem entrado de forma ilegal no enclave espanhol desde a véspera. Espanha já reenviou para Marrocos 2700 destas pessoas. O primeiro-ministro espanhol garantiu que o Governo irá utilizar "a máxima firmeza" para restaurar a normalidade em Ceuta.

Desde segunda-feira, cerca de seis mil migrantes, a maioria marroquinos, entraram ilegalmente em Ceuta, a nado ou através de tentativas para trepar as altas cercas fronteiriças que separam o enclave de Marrocos. Deste total, 1500 são menores.

As autoridades espanholas e marroquinas tinham concordado em devolver a Marrocos os jovens daquele país que chegassem a Ceuta e o ministro espanhol da Administração Interna, Fernando Grande-Marlaska, anunciou esta terça-feira que já reenviaram para Marrocos 2700 dos seis mil migrantes “e estamos a continuar essas devoluções”.

"A lei, os tratados internacionais e os nossos acordos com Marrocos" serão aplicados para a proteção dos cerca de 1500 menores que estão entre os imigrantes, assegurou o ministro espanhol.

Para agilizar este processo e garantir a segurança dos cidadãos, Grande-Marlaska anunciou que ainda esta terça-feira chegarão ao enclave espanhol 200 militares, 150 polícias nacionais e 50 guardas civis para complementar os 1100 efetivos que habitualmente se encontram na cidade de Ceuta.

“Ceuta é tanto Espanha como Madrid ou Barcelona. Vamos ser incisivos na defesa das nossas fronteiras”, garantiu Grande-Maslaska. “Seremos tão beligerantes na defesa das nossas fronteiras como somos na luta contra o discurso de ódio”, acrescentou.

Tem sido uma noite de tensa calmaria, mantivemos nossas posições como ontem [segunda-feira] para vê-los chegar, porque perante uma avalanche de pessoas com estas características não podemos fazer mais nada”, disse um guarda civil a El País, que teme o surgimento de problemas de segurança, uma vez que a cidade não tem capacidade para controlar todos estes imigrantes. Na manhã desta terça-feira, houve relatos de confrontos entre um grupo de imigrantes e a guarda civil.

“A cidade está lotada, há grupos de imigrantes em todas as ruas, principalmente na zona portuária, no centro e no bairro de San José”, afirmou um agente. “A maioria, 99 por cento, é jovem”, acrescenta.
Pedro Sánchez assegura “máxima firmeza”
Numa mensagem publicada na rede social Twitter, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, garantiu que o Governo irá utilizar "a máxima firmeza" para restaurar a normalidade em Ceuta.


"A minha prioridade neste momento é devolver a normalidade a Ceuta. Os seus cidadãos devem saber que têm o apoio total do Governo de Espanha e a máxima firmeza para garantir a sua segurança e defender a sua integridade como parte do país face a qualquer desafio"
, afiançou o chefe do Executivo.

A situação no enclave espanhol no norte de África levou Pedro Sánchez a cancelar a viagem que tinha prevista a Paris para participar numa cimeira sobre o financiamento de África organizada pelo Presidente francês, Emmanuel Macron.

No final desta manhã, após a reunião semanal do Conselho de Ministros espanhol, Sánchez fará uma declaração institucional a partir da sede do Governo, o Palácio da Moncloa, sobre a situação em Ceuta.
“Estado de exceção”
O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, garantiu, por sua vez, que a situação atual na cidade é de “exceção”, justificando com a pandemia da Covid-19. “As pessoas estão fechadas em casa. As crianças não foram à escola. Não está apenas em jogo a tranquilidade de Ceuta, mas também a integridade territorial espanhola”, afirmou Jesús Vivas esta terça-feira.

O presidente de Ceuta afirma que a cidade “sofreu uma invasão” e defende que “seria um erro tratar este assunto como um problema migratório. Isto vai além do campo migratório e atinge outros aspetos pela forma como ocorreu, pelo número de pessoas e pela atitude das autoridades marroquinas”.

Jesús Vivas implorou ainda ao Governo espanhol para que seja dada “uma resposta proporcional, eficaz, contundente e imediata”. “O Estado tem de estar presente e responder. Precisamos que a polícia, a Guarda Civil e o Exército continuem a atuar e a exercer toda a capacidade diplomática”, asseverou o presidente de Ceuta.

A entrada massiva de marroquinos em Ceuta ocorre num contexto de tensão diplomática com Marrocos, após a hospitalização em Espanha do líder do movimento de independência saharaui Frente Polisario, que estava a ser tratado e a recuperar da infeção por Covid-19.

O chefe da diplomacia marroquina Nasser Bourita convocou, em abril, o embaixador espanhol para expressar "incompreensão e exasperação" e "pedir explicações" após a receção em Espanha do secretário-geral da Polisario. O Ministério dos Negócios Estrangeiros justificou a receção do dirigente saharaui, a pedido da Argélia, "por razões estritamente humanitárias", mas Marrocos considerou o gesto uma decisão "premeditada" e tomada "nas costas de um parceiro e vizinho".

Durante as declarações desta terça-feira, o ministro espanhol da Administração Interna minimizou este conflito e sublinhou que o Executivo espanhol tem “uma relação absolutamente frutífera com o Governo de Marrocos em questões de migração”. “Vemos como muitas pessoas morrem no mar. Estamos perante uma crise migratória contínua. Esta é uma situação excecional, mas conseguimos reverter a situação”, afirmou Grande-Marlaska.

Pelo menos cinco mil migrantes, incluindo mil menores, já tinham chegado a Ceuta na segunda-feira ao longo do dia, tratando-se, segundo as autoridades espanholas, de um número “recorde”. Nem mesmo nas épocas de maior pressão migratória foram alcançados números semelhantes. O recorde mais recente foi quebrado em novembro do ano passado, quando cerca de 1500 pessoas entraram nas Ilhas Canárias num único dia e um total de 2200 migrantes desembarcou durante o fim-de-semana de 7 e 8 de novembro.

No ano passado, 41.861 migrantes chegaram de forma irregular a Espanha, por via marítima e por via terrestre, um aumento de 29 por cento em relação a 2019, em parte por causa da forte pressão migratória verificada nas Ilhas Canárias, segundo dados oficiais.

No caso específico de Ceuta, em 2020, foram referenciadas 430 chegadas por via marítima, menos do que as 655 verificadas no ano anterior.

c/ agências
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