Exposição na Gulbenkian junta quase 300 peças da `Liga dos Campeõs` da "Arte & Moda"
Quase 300 peças da "Liga dos Campões da Arte e da Moda", de artistas como Rubens e Rembrandt e criadores como Givenchy e Guo Pei, fazem parte da nova exposição temporária do Museu Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
"Arte & Moda", que abre ao público no sábado, inclui 270 obras, que vão do Antigo Egipto ao século XX, entre pinturas, gravuras, porcelanas, tapeçarias e vestuário, colocando lado a lado peças da Coleção Gulbenkian com outras de colecionadores particulares e entidades como o MUDE -- Museu do Design, em Lisboa, o Museu do Traje de Madrid, os arquivos da Givenchy, a Fundação Azzedine Alaïa, em Paris, a Maison Guo Pei, de onde chegaram seis peças "diretamente da China, algumas das quais são mostradas ao público na Europa pela primeira vez".
O comissário da mostra, Eloy Martínez de la Pera Celada, disse aos jornalistas, hoje numa visita de imprensa, que com "Arte & Moda" teve a oportunidade única "de trabalhar a Liga dos Campeões da Arte e da Moda".
Para o curador espanhol de arte, o maior desafio na preparação da exposição, que durou cerca de cinco anos, "foi encontrar as 140 peças de Alta Costura que conseguem dar continuidade à história que se queria contar ao público".
"Tivemos de arranjar peças de Moda ao nível das obras de arte, peças que pudessem dialogar com Rubens, Carpaccio ou uma das mais belas máscaras egípcias de ouro de sempre", disse.
Eloy Martínez de la Pera Celada salientou a grandiosidade das obras que compõem a Coleção Gulbenkian, iniciada por "um dos mais importantes colecionadores de beleza do século XX".
"Calouste Gulbenkian não era apenas um colecionador, amava beleza, e, por isso, a exposição é um tributo a este tipo de pessoas que colecionam as mais belas peças da Humanidade, que agora estão em Lisboa num dos mais belos museus do mundo", afirmou no início da visita de imprensa.
"Arte & Moda" está patente na Galeria Principal do edifício sede e "faz a ponte entre o museu fechado e o que vai abrir", afirmou o ex-diretor do Museu Gulbenkian, António Filipe Pimentel, que ainda programou a exposição, recordando que este ano se celebra o 70.º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian.
A zona que acolhe a exposição permanente do museu está encerrada para obras de requalificação, prevendo-se a sua reabertura para o próximo mês de julho, quando passam extamente 70 anos sobre a constituição da fundação, em 18 de julho de 1956.
A exposição "Arte & Moda", que evoca a organização da exposição permanente do museu, inicia-se com um vestido de Alta Costura da criadora chinesa Guo Pei, criado em 2006 com linho, seda, ouro, prata, metal, lantejoulas, cobre cristais e strass, que foi colocado num manequim que ostenta na cabeça uma máscara funerária egípcia, que data dos anos 300 a.C. (antes de Cristo), o primeiro dos vários "diálogos estéticos, conceptuais, emocionais e por vezes sociais" que compõem a mostra.
Eloy Martínez de la Pera Celada explicou que, com esta mostra, "que conta várias histórias", quis-se "prestar tributo a Calouste Gulbenkian e a Nevarte Essayan, a sua mulher, pessoas que viviam com estas peças na sua casa, que eram colecionadores de livros e revistas de moda". "Não eram colecionadores falsos, eram pessoas que gostavam de moda", disse. A mostra inclui peças usadas por Nevarte Essayan.
"Arte & Moda" serve também para mostrar que a Alta Costura "esteve sempre na história da Humanidade".
"Os desenhos que vemos nos sarcófagos dos faraós eram Alta Costura. Nefertiti é Alta Costura. Nos pequenos desenhos que vemos nas crateras gregas [vasos de cerâmica de grande porte] as deusas estão a usar Alta Costura, no `Quatrocentto` [ano 1400 em Itália, que marca a primeira fase do Renascimento] é Alta Costura. Quando vemos os retratos na National Gallery, em Londres, no Museu do Prado, em Madrid, é Alta Costura. Não é só agora. Eles usavam e gostavam de Moda, em todas as civilizações", referiu o curador.
Eloy Martínez de la Pera Celada quer que quem visite a exposição perceba que "milhões e milhões de pessoas antes adoraram o seu McQueen, o seu Balenciaga, que havia um Balenciaga no século XV e havia um Balenciaga e um McQueen no século II".
O curador recordou também que, embora hoje em dia se fale da `roupa sem género`, ela já existia. "O homem tem usado saias desde o início dos séculos. Não somos modernos ao falar de homens de saias".
A exposição demonstra também que "a moda não é só uma coisa de mulheres" e que os homens "já eram vanguardistas há 300 anos", quando usavam saltos altos e collants.
"Arte & Moda" também mostra ao público que a moda "foi essencial em revoluções sociais".
"Para a mulher ser moderna, no início do século XX, não podia continuar com os corpetes, usados no século XIX. A moda foi usada para empoderar a Mulher no início do século XX e esta exposição fala sobre isso também", referiu.
Para o curador, "a pintura deve à Moda a inspiração, mas a Moda deve à Pintura a permanência no tempo".
São os quadros de Vittore Carpaccio, integrados na exposição, que mostram o que se vestia no século XIV em Florença, "porque as peças foram desaparecendo, por causa da humidade, de desastres naturais, dos usos".
"As peças perfeitas são do século XVIII para a frente, não há muita moda antes disso. Conhecemos a moda desses períodos graças à escultura, à pintura, às peças arqueológicas, à `Art Deco`", salientou.
O azul e branco das porcelanas, a cerâmica islâmica, o dragão e a fénix, a cor preta, o design de tapeçarias, as filigranas, o Japão, penas e símbolos do romântico são temáticas que formam núcleos da mostra, nos quais as peças de arte são postas em diálogo com as peças de vestuário.
Ao longo do percurso, as obras destacam-se num espaço onde as paredes, o chão e o teto foram forrados a preto.
O núcleo que encerra a mostra junta a pintura "O espelho de Vénus", de Sir Edward Burne-Jones, que retrata Vénus e outras nove mulheres, e dez manequins nos quais são exibidos vestidos criados pelos designers "que fizeram os melhores plissados do século XX", como se as figuras saíssem do quadro.
"Arte & Moda" integra peças de criadores de moda como Alexander McQueen, Gianni Versace, Thierry Mugler, Vivienne Westwood, Christian Dior, Azzedine Alaïa, Yohji Yamamoto, Hubert de Givenchy, Cristóbal Balenciaga ou Issey Miake, havendo também peças criadas por designers de moda portugueses, como Miguel Vieira, Maria Gambina, José António Tenente e as duplas Storytailors e Alves/Gonçalves.
A mostra estará patente até 21 de junho, de segunda a sexta-feira entre 10:00 e as 18:00, e aos sábados e domingos das 10:00 às 21:00.
O Museu Calouste Gulbenkian encerra à terça-feira.