"Extravagante adega no subúrbio de Roma" encontrada no sítio arqueológico Villa Quintilii

Perto da Via Apia romana, foi revelada uma instalação luxuosa de produção de vinho do séc II d.C.. Reúne uma combinação decorativa com luxuosas salas de jantar com vista para fontes que jorrariam vinho produzido no complexo vinícola.

Carla Quirino - RTP /
Vista de noroeste, com a "cella vinaria" em primeiro plano e piso e lagares atrás S. Castellani

A Villa Quintilii localiza-se a cerca de oito quilómetros de Roma no mais antigo caminho romano conhecido por Via Ápia. Os trabalhos arqueológicos dos últimos três séculos deram a conhecer uma grande herdade com 24 hectares onde a agricultura e a produção de vinho, assentes num fértil solo vulcânico, desempenharam um papel fundamental na construção da identidade da elite romana.

A primeira construção monumental identificada foi datada por selos de tijolos em 125 d.C e marca num cano de chumbo. A data coincide com a posse da villa pelos irmãos Quintilii - Sextus Quintilius Condianus e Maximus - que serviram como cônsules de Roma em 151 d.C..

 
Área arqueológica de Villa Quintilii - Ministério da Cultura de Itália

A riqueza da propriedade ganhou tal importância que levou o Imperador Commodus (177-192 d.C.) mandar matar os Quintilii em 182/183 d.C.. Depois disso, os governantes imperiais apropriaram-se pessoalmente do complexo, expandindo-o e modificando-o ao longo das décadas seguintes.
Espaço vinícola único
As escavações das últimas duas décadas descobriram um complexo vinícola romano único e bem preservado na Villa Quintilii datado do fim do séc. II, início do III.

O estudo arqueológico agora tornado público, foi dirigido pelo arqueólogo Emlyn Dodd que classifica que “a arquitetura e o esquema decorativo desta instalação são altamente incomuns, exibindo um grau de luxo raramente visto em espaços de produção antigos”.

O complexo possui características típicas de uma adega romana - zona de pisa da uva; duas prensas; uma cuba para recolha e decantação do mosto de uvas; e um sistema de canais conectando esses recursos a uma cella vinaria (adega) com dolia de fossa (recipientes cerâmicos de armazenamento afundados).


Ortofotografia aérea da Villa do edifício da adega Quintilii, com indicação da zona de pisa (A), leitos de prensas (B1 e B2), salas de prensas propostas (C1 e C2), cuba de recolha (D), cela vinaria (E ) e salas de jantar (F1 e F2)

“Embora essas características sejam típicas das vinícolas romanas em várias regiões do Mediterrâneo, a sua decoração e disposição são quase inigualáveis para um contexto de produção no mundo romano e talvez em todo o mundo antigo”, explica Dodd, também diretor assistente da Escola Britânica em Roma e especialista em produção de vinho antigo.

O processo de produção teria começado na grande área de pisar as uvas era retangular com 11,5 metros por 4,5 m (calcatorium) na extremidade sul do edifício.

O chão deste espaço de trabalho era normalmente revestido por uma espécie de cimento à prova de água do tempo romano. Na villa Quintilii, “a área foi parcialmente revestida em mármore vermelho.

"O mármore fica muito escorregadio quando molhado e é uma escolha impraticável para espaços de trabalho hidráulicos, pois fica escorregadio. Portanto, o uso do mármore, comunica de imediato o sentido das prioridades e do extremo luxo desta instalação vinícola”, argumenta o arqueólogo. “Quem mandou construir assim deu prioridade à natureza extravagante do espaço em detrimento de considerações práticas”, alega Dodd.

Depois das uvas esmagadas, o mosto era canalizado para “três fontes que jorrariam de nichos semicirculares colocados na parede de um pátio” descreve o investigador. O mosto seguia depois por canais que conduziam-no para grandes reservatórios cerâmicos encastrados no chão – os dolia – onde seria desencadeada a fermentação.
Salas de jantar com vista
Em redor da área produtiva distribuem-se salas que teriam vista para o programa cénico das fontes de vinho. Para o arqueólogo “toda a instalação parece ter sido projetada, tendo em mente a questão prática da produção de vinho e o cenário teatral”.

“A cella vinaria é cercada em três lados por salas que parecem não estar relacionadas ao processo de produção. Nos lados sudoeste e nordeste estão duas salas de tamanho idêntico de nove metros por cinco”, declara Dodd. Apenas a primeira foi completamente escavada.
 

Vista da adega a partir da sala de jantar ocidental escavada - fotografia de E. Dodd

As dependências apresentam-se com entradas amplas que “proporcionaram uma visão ampla do interior do complexo e, dependendo da posição precisa, permitiram vislumbrar quase todas as etapas de produção”, descreve.

“As paredes e os pisos dessas três salas, a julgar pela única sala escavada, foram ricamente decorados com um revestimento embutido (opus sectile) de círculos de mármore dentro de dois quadrados que se cruzam” em tons vermelhos sobre fundo branco Este motivo reticular multi-estrela data dos séculos II e III d.C”, sublinha o investigador.


O pavimento opus sectile encontrado na sala de jantar ocidental escavada - fotografia de S. Castellani

A instalação vinícola da Villa Quintilii é apenas o segundo exemplo conhecido, entre o que foi certamente uma imensa indústria imperial de produção de vinho do domínio imperial romano.

Para o arqueólogo, a "extravagante adega no subúrbio romano" acrescenta uma nova marca de luxo aos espaços rústicos da época.

Justificam desta forma a hipótese de Dodd de que o imperador e a sua comitiva poderiam ter visitado a Villa Quintilii anualmente para inaugurar a safra daquele ano com um ritual e um banquete espetacular - e certamente bem regado.
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