Extrema-direita foi sempre antissemita e a esquerda perdeu a noção, diz escritor Yishai Sarid
O escritor israelita Yishai Sarid lamenta que a atual vaga de antissemitismo se pareça com "uma regra da natureza", e que se manifesta nos extremos, à direita que "foi sempre antissemita" e à esquerda que "perdeu a noção e moralidade".
Após os ataques do Hamas contra Israel, em 07 de outubro, que deixaram acima de 1.400 mortos, e da retaliação desde então contra o movimento islamita palestiniano em bombardeamentos incessantes contra a Faixa de Gaza - que, segundo o Hamas fizeram mais de 8.500 vítimas, na maioria civis - o mundo tem experimentado um debate altamente polarizado, com número crescente de manifestações e atos antissemitas e islamofóbicos.
Em entrevista à agência Lusa, o romancista e advogado residente em Telavive observa que o antissemitismo sempre existiu por razões sociais, históricas e culturais - "parece uma regra da natureza infelizmente", ironiza -, e é alimentado pela extrema-direita e extrema-esquerda contra Israel e contra os judeus.
De um lado, esta posição não o surpreende "porque a extrema-direita foi sempre antissemita devido a questões religiosas e preconceitos contra os judeus", mas no arco da esquerda o escritor observa o antissemitismo como o resultado de "teorias de colonialismo" que não refletem a situação.
"Nós não somos colonialistas, temos a nossa história e o direito de estar aqui e esse também é um direito dos palestinianos", argumenta o escritor, cuja obra assenta na memória e traumas do povo judeu.
A extrema-esquerda, continua, "pega em teorias pós-modernas e tenta implementá-las na situação atual", o que o escritor deplora, "porque houve judeus completamente inocentes - e não apenas judeus a propósito, mas também cidadãos árabes de Israel - assassinados num massacre ao estilo do ISIS (Estado Islâmico]", realizado pelo Hamas em 07 de outubro, "Dizer que merecemos o que aconteceu porque somos colonialistas ou que se tratou de um ato de libertação não é lógico, mas algo que toda a gente sabe que é muito estúpido", comenta, refletindo "uma esquerda que perdeu a noção, a alma e a moralidade".
O que se passou no sul de Israel no início de outubro "foi um ato de supremacia religiosa e racista contra o povo judeu" e nada tem a ver com liberdade mas com brutalidade: "Assassínio de crianças é assassínio de crianças, violação de mulheres é violação de mulheres", adverte Yishai Sarid, 58 anos, que foi oficial do Exército e no serviço de informações militares e, depois disso, procurador do Ministério Público, antes de se estabelecer como advogado e escritor na capital israelita.
Nesse sentido, acha que o secretário-geral da ONU cometeu um erro quando disse que os ataques do Hamas "não aconteceram do nada", porque "não há justificação possível para o horror", concedendo que António Guterres levantou uma questão importante.
"Devemos, claro, falar sobre como resolver o conflito pacificamente e nisso ele está 100% certo, mas não pode fazê-lo na mesma frase, não na mesma linha em que estamos a discutir aqueles crimes", defende.
Traduzido em 12 línguas (mas não em português), Yishai Sarid, quando esteve na Europa a propósito do seu livro `Memory Monster` - uma das cem melhores obras de 2020 para The New York Times e que versa a memória do Holocausto - ouviu em vários países europeus que, aos olhos das gerações jovens, essa é uma "história antiga, algo como a Guerra dos Cem Anos" sem impacto nem relevância nas suas vidas.
"Essa é parte da razão pela qual o nacionalismo, o antissemitismo e o racismo em geral estão a erguer-se novamente", assinala o autor, apontando que "as pessoas não sabem ou esqueceram-se das lições do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial" e o conflito na Ucrânia é igualmente um bom exemplo disso.
Por outras palavras, "parece que se está a começar tudo de novo", é preciso abordar as novas gerações e quem está próximo delas e "contar histórias sobre pessoas que assumiram riscos para fazer coisas positivas, evitaram a violência e lutaram contra ela, e salvaram outras pessoas".
Foi isso que Sarid tentou fazer na sua obra sobre o Holocausto, que custou seis milhões de vítimas - "seis milhões de seres humanos, suas famílias, histórias de amor e empregos, vidas perdidas por nada, à custa do extremismo e da violência, e então entende-se o risco de passar por cima disso tudo novamente".
O escritor, assumindo o risco de passar por ingénuo, questiona a razão que leva a que as nações sejam incapazes de falar umas com as outras, cooperar e resolver os seus problemas pacificamente, temendo pelo futuro da humanidade, num período de conflitos em grande escala envolvendo potências nucleares.
"É realmente horrível e levanta todos os receios", afirma o autor, experimentando o bloqueio do diálogo na realidade em que se move, traduzida por "relações com os palestinianos que são uma tragédia" e na incapacidade de lideranças que reputa de intelectualmente frágeis resolver os problemas entre os dois povos, ou até de se conseguir falar com alguém que fica a uma hora de carro de Telavive.
Três semanas após o choque das notícias que viu naquele sábado, 07 de outubro, o escritor divide as suas tarefas com ações de voluntariado, levando comida para os soldados ou para civis que escapam de zonas de guerra, e tentando enganar o medo que "é agora maior do que antes - "sobretudo porque a ideia de que o Governo e Exército estão a proteger a população colapsou" -, até nos momentos em que vai com a família para as escadas em pijama ao toque das sirenes de alarme aéreo.
Afinal, é essa inquietação histórica que varre a sua obra nas vidas que narra e na necessidade de luta permanente face às ameaças igualmente constantes, e trauma de enviar filhos muito cedo para o Exército: "É uma parte central da psicologia da nossa alma e que está refletida nos meus livros".
Apesar de ser agora muito difícil escrever sobre o que se passou, Sarid não tem dúvidas de que os acontecimentos de outubro vão inevitavelmente marcar o seu futuro como escritor, no mesmo ano em que venceu o Prémio Levi Eshkol para literatura hebraica e cujo valor foi por ele doado a uma organização de israelitas e palestinianos que perderam familiares no conflito.
Os seus últimos escritos foram redigidos a pedido do `kibutz` de Be`eri, que perdeu mais de cem habitantes nos ataques e que desafiou vários escritores israelitas a ajudarem voluntariamente com a tradição da comunidade em realizar elogios fúnebres.
"Escrevi o elogio para um casal que foi assassinado naquele dia terrível. Sentei-me em frente do ecrã à noite, porque o funeral era no dia seguinte de manhã e eu não os conhecia. A família enviou-me alguns detalhes sobre a vida deles e chorei muito, foi uma experiência horrível", descreve o autor.
O casal, recorda, era um homem de 74 anos e uma mulher de 70, "agricultores que tinham a sua família e viviam do modo mais simples, mais honrado e pacífico que se pode imaginar", cuja casa foi queimada pelas milícias do Hamas, tendo ambos morrido no incêndio.
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Lusa/Fim