Extremistas mataram pelo menos 19 pessoas em dez dias em Cabo Delgado
A organização ACLED relatou que extremistas associados ao Estado Islâmico Moçambique atacaram pelo menos sete localidades nos distritos de Mueda e Muidumbe, em Cabo Delgado, entre 21 e 31 de outubro, provocando pelo menos 19 mortos.
De acordo com a atualização de novembro da organização global de monitorização de conflitos ACLED, o ISM esteve ativo em nove distritos da província de Cabo Delgado em outubro, mantendo a capacidade de realizar operações "abrangentes" e explorando "fragilidades no comando, na inteligência e na logística militares", apesar das forças estatais terem "tido algum sucesso em perturbar a rede logística" insurgente ao longo da costa no último mês.
"Após ter recebido um resgate de 53.000 dólares [cerca de 47.600 euros] por um sequestro em Montepuez no início do mês, os seus combatentes regressaram à sua base em Macomia, sem serem perturbados pelas forças estatais. Apesar de ter desdobrado até 100 combatentes em Montepuez, o ISM foi capaz de realizar operações no final do mês nos distritos de Mueda e Muidumbe, onde visou comunidades rurais", descreve a última análise da ACLED.
Sobre os 19 assassinatos em dez dias, o balanço refere que, "com exceção de uma, todas as vítimas eram civis no exercício das suas atividades diárias", incluindo "dois compradores de castanha de caju", que foram mortos "debaixo de um cajueiro", e alguns jovens que produziam a bebida local napa para vender.
"Os comunicados nos meios de comunicação do Estado Islâmico sobre os ataques descreveram as vítimas como cristãs", aponta.
A ACLED descreve que estes assassinatos são "alarmantes" desde logo porque "os atacantes conseguiram movimentar-se sem impedimentos durante mais de dez dias em aldeias próximas da vila de Mueda".
"Mueda é o quartel-general da Força Local [paramilitares] e conta com um destacamento significativo das FADM [Forças Armadas e de Defesa de Moçambique]. A presença do ISM era do conhecimento local, mas não desencadeou uma resposta adequada por parte das forças de segurança, deixando as comunidades em risco", lê-se.
"Em segundo lugar, a descrição dos alvos como cristãos, numa zona da província historicamente dominada pela etnia Makonde, é provavelmente uma tentativa deliberada de provocar tensões comunitárias na província", aponta.
"Tais tensões ajudaram historicamente a moldar a política em Cabo Delgado, bem como o conflito atual. É provável que estes assassinatos mais recentes afetem as relações entre pessoas de origem Makonde e Mwani, em particular na vila de Mocímboa da Praia. Em agosto, o ISM visou bairros predominantemente Makonde na vila, o que levou muitos a fugirem para Mueda", descreve ainda.
Acrescenta que durante o mês de outubro as FADM e as Forças de Defesa do Ruanda (RDF) "estiveram ativas nas zonas costeiras", mas "com sucessos mistos".
"Uma patrulha da RDF confrontou-se com o ISM perto da aldeia de Cogolo, na costa de Macomia, desconhecendo-se o número de baixas. A 18 de outubro, a RDF intercetou um grupo de combatentes do ISM que comprava suprimentos na localidade próxima de Marijirane, matando pelo menos seis combatentes do ISM e um civil, segundo uma fonte local", refere.
Província rica em gás, Cabo Delgado enfrenta desde outubro de 2017 uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e cerca de 1,3 milhão de deslocados, segundo organizações internacionais.