Facebook. Lucro é prioritário, só depois está o bem público, denuncia antiga colaboradora

por RTP
Dado Ruvic - Reuters

Frances Haugen trabalhou para o gigante da tecnologia e diz ter ficado alarmada quando se apercebeu que as políticas da empresa estavam dirigidas a otimizar o lucro em detrimento do bem público. A colaboradora reuniu documentação que diz provar que o algoritmo da rede social está a servir conteúdos que incitam a violência, ódio e desinformação.

"O Facebook percebeu que, se mudarem o algoritmo para ser mais seguro, as pessoas passarão menos tempo no site, clicarão em menos anúncios e [o Facebook] ganhará menos dinheiro", disse Frances Haugen ao programa da CBS 60 Minutes.
Lucro vs bem público
Por ver o lucro reduzir, a empresa que gere o Facebook, "repetidamente, escolheu otimizar a rede a favor dos seus próprios interesses, para ganhar mais dinheiro", afirmou Haugen.

Acrescentou que "havia conflitos de interesse entre o que era bom para o público e o que era bom para o Facebook".

Frances Haugen trabalhava há mais de dez anos a gerir conteúdos no Google e no Pinterest, quando foi convidada a integrar o Facebook, em 2019. Haugen conta que concordou ingressar na plataforma criada por Mark Zuckerberg se pudesse combater a desinformação. E deu o exemplo pessoal de já ter perdido um amigo depois de "se envolverem em conspirações online".

Mas cedo sentiu que o Facebook não estava disposto a alterar o funcionamento, mesmo tendo as ferramentas. Afirmou no entanto que "ninguém no Facebook é malévolo". "Mark Zuckerberg nunca se propôs a fazer uma plataforma odiosa".

Heugen disse que a empresa "deliberadamente desprezou o conteúdo político no feed de notícias", o que prova que, se o Facebook quiser, pode atenuar conteúdos que promovam o ódio, violência e a desinformação.

Mas sem assuntos polémicos havia menos interação dos utilizadores, menos publicidade associada a circular, logo menos lucro.

A ex-colaboradora entende que as escolhas da empresa foram graves, nomeadamente quando mudou as políticas de conteúdo por várias semanas em torno das eleições de 2020 nos Estados Unidos.

A plataforma regressou aos algoritmos antigos que "valorizam o engajamento acima de tudo", um movimento que, segundo Haugen, terá contribuído para o motim de 6 de janeiro no Capitólio.
Reações
"As redes sociais tiveram um grande impacto na sociedade nos últimos anos e o Facebook costuma ser um espaço onde grande parte desse debate se desenrola", escreveu Nick Clegg, vice-presidente de políticas e relações públicas da empresa aos funcionários do Facebook, num memorando na sexta-feira.

Clegg, citado na publicação do The Guardian, diz que "as evidências que existem simplesmente não apoiam a ideia de que o Facebook, ou as plataformas digitais em geral, são a principal causa da polarização".

O porta-voz do Facebook, Andy Stone, também rebateu as acusações, dizendo que "sugerir que encorajamos um conteúdo maléfico e não fazemos nada não é verdade".

Antigone Davis, chefe global de segurança do Facebook, foi escrutinado pelos legisladores americanos sobre a rede social Instagram por ter um algoritmo gerado pela aplicação que faz uma pesquisa automática e prenche os feeds com fotos que podem ter impacto prejudicial sobre as crianças.
Denúncia
Frances Haugen decidiu reunir um conjunto de provas para denunciar a plataforma Facebook.

Partilhou os documentos com o Wall Street Journal e autoridades policiais, dias antes de se apresentar como testemunha perante o Congresso dos EUA, para falar sobre esses estudos e outras informações associadas à gestão de conteúdos.

Para Haugen, "a versão do Facebook que existe hoje está a separar as nossas sociedades causando violência étnica em todo o mundo".
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