Fenómeno dos talibés é "escravatura em África" - embaixador da Guiné-Bissau em Dacar

Dacar, 14 Dez (Lusa) - O fenómeno dos talibés (crianças que estudam o Corão) "é uma verdadeira escravatura em África", afirmou à Lusa o embaixador da Guiné-Bissau em Dacar, Senegal, um dos protagonistas na luta contra a exploração de menores e ele próprio um ex-talibé.

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"Aqui em Dacar há crianças da Guiné-Bissau, Mali, Guiné-Conacri e Gâmbia", disse Fali Embaló, um dos principais responsáveis pelo regresso de dezenas de crianças guineenses talibé à Guiné-Bissau.

"Para mim, é uma verdadeira escravatura em África, classificou o diplomata.

"Quando aqui cheguei tentei acabar com isso mas fui ameaçado. Não tenho poupado esforços na luta contra o tráfico de crianças", sublinhou.

"É triste e revoltante. Não sabem que as crianças são sementeiras", desabafou o diplomata.

O embaixador da Guiné-Bissau em Dacar tem sido um dos protagonistas na luta contra a exploração de crianças talibés por falsos mestres corânicos, em parceria com a Organização Internacional das Migrações (OIM), que desde Março de 2006 já fez regressar ao território guineense mais de 100 crianças.

A polícia guineense juntamente com organizações não-governamentais tem, por outro lado, tentado controlar o fenómeno dos talibés, que passa pelo envio de crianças muçulmanas para outros países, supostamente para fazerem os estudos corânicos, a partir da Guiné-Bissau.

O ensino dos estudos corânicos tem sido utilizado por falsos mestres para seduzir centenas de pais a enviar as suas crianças para o Senegal, no caso da Guiné-Bissau, com o objectivo de aprenderem a ler o Corão.

Estes mestres obrigam, contudo, as crianças a mendigar nas ruas dinheiro e comida para seu próprio proveito.

Antigo estudante do Corão, o embaixador têm recolhido em sua casa alguns talibés que a polícia senegalesa vai entregar à representação diplomática guineense.

Salientando que em 2002 o fenómeno era mais grave, Fali Embaló referiu que as "autoridades senegalesas já perceberam os perigos" de deixarem entrar estas crianças.

"Quando estas crianças tiverem 20 anos só conhecem a rua e na rua o mais forte é que sobrevive. Esse fenómeno é muito perigoso", afirmou.

O aumento do controlo por parte das autoridades, que exigem saber a nacionalidade das crianças, provocou também algum medo nos marabus (os falsos mestres) e está a permitir controlar melhor o fenómeno, disse.

"O Senegal começou a tomar medidas para impedir a entrada de crianças. A próxima comissão mista entre a Guiné-Bissau e o Senegal já vai abordar esse assunto", sublinhou o embaixador, acrescentando que o objectivo não é proibir os estudos corânicos, mas controlar esta forma de fazer os estudos.

MSE.

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