Fidel apostou no "cavalo errado" da Indonésia afirma o Embaixador Duarte Costa

"Comandante da Revolução" símbolo da "luta anti-imperialista", Fidel Castro e o seu regime estiveram do lado errado da história, ao apoiarem a Indonésia contra os timorenses, já depois do referendo de Agosto de 1999 que votou pela independência.

Agência LUSA /

O episódio foi hoje recordado à Agência Lusa pelo embaixador de Portugal em Kinshasa, Alfredo Duarte Costa, à altura daqueles acontecimentos representante de Portugal em Havana.

"Encontrava-me numa recepção do dia do México, em 16 de Setembro de 1999, quando me vieram dizer que era convidado para jantar com Fidel. Na véspera, o representante cubano na ONU, Bruno Rodriguez, tinha feito um discurso a apoiar a Indonésia e a criticar o movimento de libertação de Timor-Leste e Portugal não gostou", recordou Duarte Costa.

O diplomata é um confesso apaixonado pela ilha das Caraíbas, onde diz ter sido sempre muito bem tratado quando ali esteve entre 1999 e 2004, e sobre a qual escreveu um livro e duas teses académicas. De Fidel, com quem privou, afirma ser um "homem desconcertante".

"Jantámos os dois sozinhos, numa sala modesta, ele é que servia o vinho, e ia dizendo informalmente: `olha, esta garrafa deu-ma o Américo Amorim` e coisas do género.

Ele é muito desconcertante, consegue ser muito duro e ao mesmo tempo ter posições de grande carinho".

"Mas havia uma tensão no ar porque o governo português tinha acabado de cancelar a visita a Lisboa do ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Felipe Perez Roque, marcada para o dia seguinte".

O ministro cubano estava em Madrid a aguardar o desenlace dos acontecimentos, e passou parte da noite ao telefone com Fidel Castro enquanto, ao lado deste, o diplomata português fazia, também por telefone, o ponto da situação ao ministro Jaime Gama.

"O jantar deve ter acabado por volta das 03:00, Fidel repetia que não havia necessidade dos dois países extremarem posições, eu afirmava que os combatentes timorenses eram comparáveis aos guerrilheiros de Sierra Maestra (o local onde Castro e os seus seguidores iniciaram na década de 1950 a guerrilha contra Fulgêncio Batista) e o Perez Roque em Madrid à espera de uma solução", disse Duarte Costa.

"Até que foi sugerido que o governo cubano emitisse um comunicado a dizer que as afirmações do seu embaixador na ONU tinham sido mal interpretadas e que Cuba respeitava as decisões que fossem tomadas. Logo na manhã seguinte, a televisão cubana avançou com esse comunicado e repetiu-o periodicamente", acrescentou o diplomata.

O episódio voltou recentemente à memória do Duarte Costa, por ocasião da passagem por Kinshasa da ex- embaixadora de Portugal na Indonésia, Ana Gomes, como observadora pelo Parlamento Europeu, onde é deputada, às eleições na RD Congo.

Um jantar na legação portuguesa juntou diversos diplomatas e, ouvindo de Ana Gomes que o apoio cubano na area da saúde era bem recebido pelas diversas facções timorenses, o embaixador cubano recordou uma recente reunião em Havana na qual, afirmou, Fidel se mostrou muito interessado pela situação no território.

"E logo eu e a Ana Gomes dissemos ao mesmo tempo:

`Devem ser remorsos`", riu-se Duarte Costa.

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