Fiéis abandonam Praça São Pedro no fim da primeira eucaristia

Uma longa cadência de sinos compassada com silêncios e depois um longo movimento de fiéis e turistas no abandono da Praça de São Pedro, no Vaticano.

Agência LUSA /
EPA

Sinos que deram o sinal do fim da primeira eucaristia de domingo, em muito tempo em que a Praça de São Pedro não teve a tradicional bênção papal, que normalmente aqui chamava dezenas de milhares de pessoas.

Um som marcado por alguns cânticos e que, desconhecido dos presentes, assinalava igualmente a deposição do corpo de João Paulo II em câmara ardente, para já acessível apenas a altos dignitários religiosos e do corpo diplomático.

Alheios à movimentação constante das pessoas que saem do fim da missa, dois párocos rezam em espanhol e entre dentes, terços na mão, a Ave Maria.

Um grupo com uma bandeira da Polónia, de um dos lados preso a ela um pano preto, na metade vermelha do pano a palavra "bardo".

Com a praça quase cheia, muitos só conseguem ficar na principal avenida de acesso a São Pedro, acompanhando a eucaristia e as orações por vários ecrãs gigantes que a polícia instalou.

Muitas famílias, muitas nacionalidades.

Três jovens, uma caixa de cartão rasgada e aberta onde escrevem em letras garrafais "misericórdia".

Um largo grupo de Escuteiras da Europa, muitos turistas, bandeiras de companhia de viagem misturadas com os símbolos nacionais que dão ainda mais cor à Praça.

Durante toda a missa aqui e ali cânticos, palmas em crescendo ao longo de toda a Praça.

Ao meio-dia tocam os sinos em igrejas ao redor do Vaticano em jeito de pano de fundo às escrituras e ao sermão de homenagem ao Papa.

Encostados à parede, sentados em recantos, degraus ou no chão, muitos lêem jornais, todas as manchetes com o mesmo tema.

Distinto, gravata vermelha e preta, fato amarelo torrado e o cabelo já fortemente grisalho, um homem folheia o L` Observator Romano, na contra capa uma foto a toda a dimensão de João Paulo II e a frase "não tenhais medo".

Ao voltar da esquina, propositadamente de costas para a praça, um homem de roupa gasta, uma longa barba e um longo cabelo branco, segura num saco da "ópera romana pele grinalle".

A falar sozinho, vocifera sem se saber porque ou contra quem, pontualmente lendo a bíblia fortemente anotada e que de tão folheada aparece gasta.

Já na saída da missa, uma criança nos ombros do pai vai colocando em sucessão rápida as perguntas que talvez outros façam silenciosamente.

"Quem é o papa? E está aqui? E quando morreu foi para onde?" Outras mais velhas, pedem dados mais precisos e informação mais fácil sobre o mandato de João Paulo II, sobre quem o antecedeu.

Um pai mais informado vai dando a ordem cronológica dos últimos cinco papas e tenta explicar o que sucederá agora.

Guti Fernandes, de Goa, ao lado da mulher, diz que quis hoje parar algum tempo aqui, talvez o ponto alto do seu passeio pelo Vaticano e por Roma.

"É uma homenagem ao Papa de todos, só isso" explica.

De olhos postos em tudo, mais polícias, mais funcionários médicos, mais elementos da protecção civil, medidas extraordinárias que já se evidenciavam nos acessos principais ao Vaticano, onde o trânsito foi condicionado e só passam viaturas de serviços públicos.

Um primeiro ensaio para o que as autoridades esperam possa ser a afluência de até dois milhões de pessoas de todo o mundo para a última despedida ao Papa.

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