Fiscais da pesca ajudam a manter soberania angolana da abandonada Baía dos Tigres

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Ao fim de duas horas ancorado ao largo, o comandante Alfredo Pinto Moreira dá ordem para desembarcar ainda antes das 08:00. A subida da maré permite, finalmente, chegar com o bote a um dos locais mais inacessíveis em Angola.

Estes fiscais são praticamente os únicos a pisar regularmente as ruas da abandonada vila angolana na Baía dos Tigres, hoje coberta de areia, quase meio século depois da saída dos colonos portugueses da povoação, onde a rua principal ainda guarda a memória de quando era também pista para pequenas aeronaves.

A bordo do navio "Bula Matadi", de 47 metros de comprimento, do Serviço Nacional de Fiscalização Pesqueira e da Aquicultura de Angola, a viagem até aquela que hoje é uma ilha, acessível apenas na maré baixa e com desembarque apenas em alguns locais, habitada até ao final do período colonial português, levou toda a noite, para navegar 100 quilómetros, desde o porto do Tômbwa, também na província do Namibe.

"Como se vê, está abandonado. Mas nós, com uma certa regularidade, temos feito viagens de patrulha aqui e aproveitamos a baía para a nossa embarcação descansar, por ser uma zona calma", explica, já em terra firme, à agência Lusa, Alfredo Pinto Moreira, chefe do departamento de Inspeção e Fiscalização da direção provincial de Pescas do Namibe.

Em pano de fundo erguem-se as ruínas do destilador de água do mar instalado em 1922 e que já então produzia 22.500 litros diários de água doce para os pescadores que viviam na então povoação de S. Martinho dos Tigres.

Edifícios ainda com as inscrições e símbolos portugueses povoam o cenário, mas tudo o resto é um silêncio total entre uma escola e um hospital, cobertos parcialmente pela areia. O único som é das gaivotas que na ilha encontram refúgio da tempestade.

Mais próximo fica a igreja de São Martinho dos Tigres, o principal templo e que era palco de procissões e celebrações diárias. Foi construída com conchas e outras matérias-primas encontradas na baía pelos colonos portugueses, mas está hoje totalmente despedida, apesar de intacta. As portas abertas servem agora apenas para a entrada da areia carregada pelo vento desde o deserto, a mesma que ano a pós ano vai cobrindo a povoação, transformada numa aldeia fantasma.

Desde pelo menos o século XVIII conhecida pela invulgar quantidade e qualidade de peixe, que lhe valeu a alcunha de "Great Fish Bay" pelos ingleses, hoje, explica Alfredo Pinto Moreira, é uma "zona reservada", em que "não é permitida a pesca".

Daí a atenção regular que os fiscais - praticamente os únicos que conseguem chegar a terra firme - atribuem à Baía dos Tigres: "Já tivemos alguns problemas. Já foi utilizado por pescadores ilegais, mas agora nós temos um controlo efetivo sobre a zona".

Por ação do Ministério das Pescas, e depois de um período de abandono total entre 1975 e 1996, a vigilância é hoje regular, depois de anos em que a vila foi utilizada por pescadores ilegais, que ali faziam uma espécie de porto, para todo o tipo de atividades ilícitas.

"Temos um patrulhamento regular e pelo menos uma vez por mês nós passamos nesta zona", garante, por seu turno o chefe da fiscalização do Namibe.

A contra costa da baía é o local menos acessível, dada a forte a ondulação, mas também casa para a única povoação de focas em Angola.

Na direção do continente, os últimos quilómetros da costa que leva à foz do rio Cunene, um cordão de dunas e areia do deserto do Namibe termina abruptamente, transformando a baía, de facto, numa ilha, inacessível por terra.

A ligação a terra firme foi perdida em definitivo a 14 de março de 1962, após fortes ondulações terem destruído a estreito canal, mudando a história da povoação.

Um posto sanitário ou uma delegação marítima, além de dezenas de casas e fábricas de pesca, ainda sobrevivem na pequena aldeia, fundada em 1860 por pescadores que chegaram em traineiras desde o Algarve, no sul de Portugal.

A povoação dividida por uma avenida que servia de pista de aviação durou pouco mais de um século e em 1975, com a independência angolana, a maior parte dos habitantes partiu. Nos anos seguintes, a rutura dos canais que traziam água doce desde a foz do Cunene selou o abandono até aos dias de hoje.

"Lá não vive ninguém, as infraestruturas também estão soterradas. Mas é um sítio convidativo", conta à Lusa Benvinda Mateus, administradora-adjunta do município do Tômbwa, que tem mais de 50.000 habitantes, mas nenhum a morar na Baía dos Tigres.

No Tômbwa, a expectativa passa por um "projeto nacional", depois de falhadas outras tentativas pontuais de repovoamento e reabilitação, voltado para a pesca, mas não só.

"A Baía dos Tigres pode ser uma referência para o turismo no sul de Angola", concluiu.

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