Flávio, o outro Bolsonaro ou "um balão de ensaio"?

Flávio, o outro Bolsonaro ou "um balão de ensaio"?

É sem rodeios que a revista The Economist apresenta Flávio Bolsonaro como "nepo baby vingativo". A expressão "nepo baby" refere alguém que teve oportunidades e vantagens graças à influência dos pais ou outras ligações familiares. Neste caso, pesa o apelido Bolsonaro.

A adjetivação de “vingativo” é justificada com o objetivo assumido por Flávio: libertar o pai, Jair, condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Flávio Nantes Bolsonaro nasceu há 45 anos em Resende no estado do Rio de Janeiro. A carreira política começou quando foi eleito, aos 21 anos, como o deputado estadual mais jovem da legislatura de 2003 a 2007. Esteve no cargo de deputado estadual do Rio de Janeiro de 2003 a 2018.

Eleito em 2019 para o cargo de senador pelo Rio de Janeiro, agora Flávio Bolsonaro não se cansa de garantir que é “diferente de Jair”. Uma estratégia, afirmam os analistas políticos, para conquistar os eleitores indecisos.
Foto: EPA
Nesse sentido, a campanha do Partido Liberal (PL) divulgou nas rádios, entre os dias 19 e 21 de setembro, as palavras do seu candidato à presidência do Brasil:

"Se você ainda tem alguma dúvida, se ficou chateado com o Jair, se tá decepcionado com o Lula, eu quero dizer que meu nome é Flávio. Tenho minhas qualidades, meus defeitos, mas sou diferente dos dois. E o que importa é que o Brasil precisa mudar urgente: derrotar o crime, acabar com o medo e com esse sufoco. Do jeito que tá, já deu errado. Peço o seu voto de confiança pra fazer o Brasil voltar a vencer."

A estratégia tem sido alimentar a imagem de que Flávio é um Bolsonaro “mais moderado”. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, tem insistido nessa ideia. “Ele é diferente do Bolsonaro. Não quero dizer que ele é melhor que o Bolsonaro, porque não existe alguém como Bolsonaro, mas ele tem mais paciência, ele conversa mais”.
Sendo ou não mais paciente do que o pai, Flávio Bolsonaro carrega a suspeição de envolvimento em casos de alegada corrupção e branqueamento de capitais.
Foto: EPA
O exemplo mais recente colocou Flávio Bolsonaro no centro de uma investigação por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. Em causa está o financiamento de um filme sobre o próprio pai, Dark Horse. 

O lançamento do filme estava agendado para acontecer antes das eleições. No entanto, foi adiado sem haver uma nova data.

Outro exemplo é o caso das rachadinhas, um esquema que movimentou cerca de dois milhões de reais através de funcionários fantasmas que emprestavam nome e contas bancárias para permitir o desvio de recursos públicos.
Uma investigação policial mostrou indícios de que Flávio, durante o período em que foi vereador municipal no Rio de Janeiro, terá criado vários empregos fictícios para ficar com uma parte dos salários desses assessores.
Os possíveis desvios no gabinete do político foram alvo de investigação em 2020. Flávio foi denunciado, mas não chegou a ser julgado porque as provas centrais da investigação foram consideradas inválidas.
As suspeitas tornaram o tema da corrupção (tão caro ao bolsonarismo) muito sensível e difícil para Flávio Bolsonaro.
Foto: Reuters
Há também várias ligações do senador a figuras do mundo das milícias criminosas que controlam bairros inteiros no Rio de Janeiro. 

Uma dessas figuras foi Adriano da Nóbrega (ex- polícia militar que se tornou um dos homens mais procurados do Brasil), chefe da milícia Escritório do Crime e que foi interrogado pelo envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco.
O nome do pai
O anúncio da candidatura de Flávio Bolsonaro, em dezembro de 2025, às presidenciais gerou grandes repercussões no Brasil. A bolsa de valores do país teve a maior queda em quatro anos.

A reação na política também foi negativa: a direita preferia que Jair Bolsonaro tivesse endossado Tarcísio de Freitas, ex-ministro da Infraestrutura. O atual governador de São Paulo (que se recandidata ao lugar) tinha o apoio entusiástico do centro financeiro brasileiro (a Wall Street brasileira), sendo considerado um bolsonarista moderado pela imprensa.
Foto: Reuters (Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas)
Perante as reações negativas ao seu nome, Flávio prometeu mostrar “um Bolsonaro diferente, um Bolsonaro muito mais centrado, um Bolsonaro que conhece a política, que conhece Brasília, um Bolsonaro que realmente vai querer fazer uma pacificação neste país, ao contrário do atual governo” de Lula.

Licenciado em direito e com especializações em ciência política, políticas públicas e empreendedorismo, o candidato do Partido Liberal tentou diminuir a resistência do mercado financeiro ao seu nome.

Quanto ao eleitorado, logo em dezembro, uma sondagem mostrava uma taxa de rejeição elevada ao nome de Flávio Bolsonaro. O inquérito da Genial/Quaest de dezembro revelou que 60 por cento dos eleitores não votaria no senador do Rio de Janeiro.

“Começar com tanta rejeição é um desafio e mostra que pode ter um teto para o crescimento dele”, alertava então a diretora do Ipsos-Ipec (instituto de pesquisa de opinião pública e política no Brasil).
No entanto, a campanha presidencial do filho mais velho de Jair Bolsonaro tem feito caminho e as sondagens dão conta desse crescimento. 
Foto: Reuters
Os analistas sublinham que ele tem demonstrado ser capaz de liderar a oposição de direita, superando figuras proeminentes do espaço conservador, como os governadores Tarcísio de Freitas e Romeu Zema.
A estratégia de marketing político tem sido eficaz e a forte presença nas redes sociais tem ajudado o senador a atrair eleitorado descontente com o governo de Lula da Silva.
No entanto, terá sido essencial a carta do pai a apelar à união da Direita e também o apoio da ex primeira-dama Michele que tem um forte peso político e que colocou um fim à disputa interna na família Bolsonaro.

Em dezembro de 2025, o Le Monde Diplomatique analisava a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro como “um balão de ensaio”.

“Ao expor Flávio ao escrutínio público, a família testa não apenas sua capacidade de defesa política, mas também o nível de tolerância social ainda existente em relação à simbiose entre política institucional, milícia e práticas patrimonialistas”, escreveu Mauricio Alfredo, professor de Geopolítica. “Em última instância, o que está em jogo não é apenas o futuro político de um sobrenome, mas a resposta a uma questão mais profunda: a extrema-direita brasileira seguirá prisioneira do bolsonarismo ou conseguirá se reorganizar para além dele?”

Não é fácil encontrar diferenças, talvez a mais evidente é que Flávio Bolsonaro, num sinal de drástica distinção em relação ao pai, não teve qualquer encontro público com alguém da esfera militar.

Quanto ao que pretende fazer se for presidente do Brasil, ele tem sido alvo de críticas porque não se conhecem detalhes sobre o plano económico para o país.
Foto: Reuters
Nas críticas feitas a Flávio (para além das que são feitas a Lula), a revista The Economist afirma que o candidato do PL não explica, por exemplo, como pretende reduzir despesas para controlar as contas públicas.
De acordo com a análise feita pela revista, o perdão do ex-presidente Jair Bolsonaro e o confronto com ministros do Supremo Tribunal Federal ganharam mais espaço na campanha do que um programa detalhado de reformas económicas.
Caso Flávio vença a eleição, a estratégia será usar o capital político das urnas para negociar ainda em 2026 um amplo pacote fiscal e institucional. Estão previstos cortes nas despesas primárias equivalentes a aproximadamente 1,5 por cento do PIB do Brasil.

A ideia é apresentar nove ou dez medidas de choque tendo como contrapartida a decisão de Flávio não disputar a reeleição em 2030. 

De acordo com um assessor da equipa económica do atual candidato, o compromisso com um mandato único permitiria absorver o desgaste de medidas impopulares. 

Para além de reduzir eventuais resistências das lideranças do Centrão e da própria direita interessada na sucessão presidencial.

No Brasil, o voto é obrigatório para as pessoas alfabetizadas entre os 18 e os 69 anos e facultativo para as pessoas analfabetas, os maiores de 70 anos e os jovens de 16 e 17 anos.

A ausência não justificada pode dar origem a uma multa de até 59 cêntimos por volta eleitoral.