Forças pró-Kadhafi disparam míssil “SCUD”

Pela primeira vez desde que começou a revolta na Líbia, as forças leais ao coronel Kadhafi dispararam um míssil “SCUD”, mas este caiu no deserto sem provocar estragos. O disparo do míssil ocorre numa altura em que a balança parece estar a pender a favor dos rebeldes. Nas últimas semanas estes recomeçaram a avançar rumo a Tripoli pondo, aparentemente, fim a um impasse que durava há vários meses.

RTP /
Um míssil de fabrico soviético SCUD, como o que terá sido disparado pelas forças de Kadhafi montado num lançador DR

Segundo o Pentágono, o lançamento do SCUD foi detetado pelas forças dos EUA no domingo de manhã. O míssil foi lançado de um ponto localizado a oitenta quilómetros a leste de Sirte, a cidade natal de Kadhafi, e aterrou no deserto oitenta quilómetros a leste da cidade de Brega que se encontra em poder dos insurretos.

Os militares americanos acreditam que o SCUD tinha como alvo as áreas residenciais de Brega, conquistadas na semana passada pelas forças rebeldes, mas não há certezas absolutas pois este tipo de míssil não é uma arma de precisão. O terminal petrolífero, a refinaria e o porto, que dão à cidade a sua importância estratégica, estão ainda nas mãos das forças leais ao coronel.

Legado soviéticoOs SCUDS são misseis balísticos de curto alcance de origem soviética e derivam da V2 usada pelos alemães na segunda guerra mundial. Trata-se de uma arma relativamente obsoleta cujo alcance varia entre 130 e 800 quilómetros, consoante o modelo. Acredita-se que Kadhafi disponha de duas centenas destes mísseis no seu arsenal.

No início da intervenção da NATO, as forças aéreas da Aliança atacaram as plataformas de lançamento e os contentores de misseis SCUD perto de Sirte, afirmando que essas armas poderiam ser usadas contra civis ou contra as áreas que Kadhafi já não controla.

Em Bengasi, a capital de facto dos rebeldes, um porta-voz das forças anti-Kadhafi disse que o disparo do míssil não era uma surpresa:

“O regime do tirano [Kadhafi] possui esses mísseis e é capaz de os usar. Eles utilizarão qualquer arma que for necessária para manter de pé o regime e recuperar o poder, nem que seja por algumas horas. Estamos habituados a enfrentar esse tipo de comportamento imprevisível e bárbaro por parte daqueles que perderam legitimidade e credibilidade”, disse Ahmed Bani.

Kadhafi apelou à resistencia De Tripoli não veio qualquer reação ou desmentido à notícia do míssil. Numa mensagem de áudio transmitida na segunda-feira de manhã na televisão estatal, Kadhafi exortou os seus seguidores a que se mantenham firmes e lutem, pedindo-lhes para pegarem em armas e combaterem os traidores e a NATO. “O fim do colonizador está próximo e o fim das ratazanas está próximo” disse Kadhafi, encorajando os seus partidários a prepararem-se para a batalha que vai “libertar a Líbia”.

Especialistas militares dizem que é cedo para saber se o lançamento do míssil foi um ato isolado ou se trata de uma nova fase no conflito que dura há seis meses.

Nas últimas semanas as forças anti-Kadhafi têm vindo a ganhar terreno. Depois de três dias de ferozes combates em Zawia, os comandantes rebeldes dizem ter conseguido controlar o sul e a parte ocidental da cidade e estão a lutar agora para conquistar as refinarias.

Um engenheiro das instalações petrolíferas de Zawia disse que os insurrectos cortaram os oleodutos que transportavam gasolina e diesel para Tripoli, mas a afirmação não pode ser ainda confirmada.

Rebeldes cerram o cerco a TripoliOs rebeldes estão também determinados a cortar as duas principais estradas que levam à capital, que assim ficaria isolada e sem possibilidade de receber reabastecimentos por terra. Nos últimos dois dias, os insurretos conquistaram várias aldeias e vilas em redor de Tripoli e estarão agora a algumas dezenas de quilómetros da cidade .

Em Tripoli a vida é cada vez mais difícil. Os habitantes queixam-se dos frequentes cortes de eletricidade e da escassez de combustíveis, bem como do aumento dos preços dos bens essenciais. Muitos estão vindo a fugir para as montanhas, por temerem que a guerra em breve chegue à cidade.

Entretanto e no que poderá ser a última de uma série de deserções de figuras do regime líbio, o chefe da segurança pública e antigo ministro do interior, Nassr al Mabroul Abdullah, viajou para o Egito, com nove dos seus familiares, utilizando vistos turísticos.

“Torna-se cada vez mais claro que os dias de Kadhafi estão contados” disse o secretário de imprensa da Casa Branca Jim Carney. Algumas fontes militares dos EUA, dizem, a coberto do anonimato, que há razões para pensar que os rebeldes podem ter conseguido ganhar balanço suficiente para conquistar todo o pais.

Alguns analistas discordam e fazem notar que Kadhafi ainda tem a seu favor umas forças armadas bem treinadas e armadas e a lealdade de várias tribos nas regiões que rodeiam Tripoli.



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