Fórum da Sociedade Civil da CEDEAO preocupado com instabilidade na região critica organização

O representante da sociedade civil da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) na Guiné-Bissau, Gueri Gomes, manifestou hoje preocupação com a instabilidade na região e deixou críticas à organização por ter "dois pesos e duas medidas".

Lusa /

"O Fórum da Sociedade Civil da CEDEAO está muito preocupado com o que está a acontecer, sobretudo, com o último golpe que aconteceu no Burkina Faso. Podemos considerar que em menos 18 meses aconteceram três golpes de Estado, o que não é um bom indicador para a estabilização da região, para a estabilidade governativa e para a paz a nível da região", afirmou, à Lusa, Gueri Gomes.

Depois do golpe de Estado ocorrido no Mali em maio e da Guiné-Conacri em setembro do ano passado, os militares do Burkina Faso assumiram no início desta semana a liderança do país, afastando o Presidente, Roch Kaboré.

Para Gueri Gomes, a CEDEAO tem a responsabilidade de adotar uma "nova estratégia" e de repensar a sua intervenção na temática da boa governação e da democracia.

"Porque na questão dos golpes de Estado, os fundamentos estão relacionados com má governação, violação dos direitos fundamentais dos cidadãos, com a questão do respeito da democracia, sobretudo na questão de tentativa de realização de três mandatos pelos presidentes", salientou,

"É preciso que a CEDEAO seja mais intransigente em relação aos chefes de Estado e de Governo em relação ao respeito das diretrizes de boa governação e democracia, porque senão vamos ter sempre estas situações. Não basta só as sanções, como tem vindo a acontecer", continuou.

O Fórum da Sociedade Civil da CEDEAO considera que as sanções impostas ao Mali vão prejudicar, sobretudo, o povo maliano.

"Neste momento a população maliana vai estar numa situação muito difícil, porque independentemente das sanções estão num contexto de crise a nível internacional, que acaba por limitar a capacidade de movimentação das pessoas", afirmou Gueri Gomes.

Para Gueri Gomes, as sanções vão pesar ao nível do bem-estar da população.

"Trabalhando só com sanções vai tornar a população mais empobrecida, que acaba por ser vulnerável ao recrutamento para o terrorismo, para a emigração clandestina. Por isso, a nosso ver a CEDEAO tem de chamar diferentes atores para perceber o que está na origem dos golpes de Estado", afirmou.

Gueri Gomes destacou que os autores dos sucessivos golpes de Estado têm justificado a sua atuação com questão relacionadas com a falta de respeito pela "democracia, má governação, falta de respeito pelos direitos fundamentais, incapacidade dos governos em garantir a segurança ao Estado e isso acaba por servir como suporte" para as suas ações.

"É preciso que a CEDEAO se torne uma organização mais do povo, não uma organização do interesse dos chefes de Estado como tem acontecido até aqui", disse.

Gueri Gomes disse também que a atuação da CEDEAO tem de ser idêntica em todos os países, "porque está a aparecer um sentimento de que a CEDEAO é uma organização de chefes de Estado e não uma organização dos Estados-membros".

"Quando se trata do Estado não podemos apenas tratar do poder político, mas também da população, das suas necessidades e anseios e quando a CEDEAO não toma isso em consideração, a vulnerabilidade da população, e só vê pelo interesse dos chefes de Estado acaba por perder a credibilidade", afirmou.

"Isso leva a CEDEAO a assumir uma posição de dois pesos e duas medidas e isso está a desacreditar a organização. A CEDEAO é extremamente importante e é fundamental para o crescimento da região e essa desacreditação pode levar a um retrocesso da região. É preciso a CEDEAO repensar a sua estratégia de intervenção para uma que vá ao interesse da população e não do poder político", concluiu.

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