Cultura
Fragmento da Epopeia de Gilgamesh com 3500 anos é devolvida ao Iraque
Uma das obras literárias mais antigas, escrita em tabuinhas de argila, foi roubada de um museu iraquiano em 1991, durante a Guerra do Golfo. De acordo com a Unesco, a peça arqueológica foi "fraudulentamente introduzida no mercado de arte americano em 2007".
Após a primeira Guerra do Golfo, milhares de tesouros arqueológicos foram saqueados das instituições iraquianas, incluindo muitas tabuinhas de argila com inscrições.
Escrita com caracteres cuneiformes, narra a história do Rei Gilgamesh, que terá vivido uma epopeia em busca da imortalidade. A peça mede aproximadamente 15 centímetros por 12,7 e é um testemunho da língua acádia.
A preciosa peça arqueológica foi roubada de um museu iraquiano e levada ilegalmente para os Estados Unidos durante o conflito de 1991.
Departamento de Segurança Interna dos EUA
"Na última década, o mundo testemunhou um aumento alarmante da destruição de património cultural como resultado de conflitos armados", referiu a Interpol em 2017. Acrescentou que "o Oriente Médio, em particular, é afetado por esse fenómeno, ainda que outras regiões como a África do Sul ou Ásia Central não sejam poupadas".
Esta pequena tabuinha de argila contém um fragmento de texto escrito há 3500 anos. Os autores pertenceriam aos povos que viviam na antiga região da Mesopotâmia, localizada entre os rios Tigre e Eufrates.
A preciosa peça arqueológica foi roubada de um museu iraquiano e levada ilegalmente para os Estados Unidos durante o conflito de 1991.
Depois da Guerra do Golfo "a tábua dos sonhos de Gilgamesh" terá sido "fraudulentamente introduzida no mercado de arte americano em 2007", antes de ser apreendida pelas autoridades judiciárias do país em 2019, de acordo com a Unesco.
A epopeia da tabuinha
Em 2013, um negociante de antiguidades americano diz ter comprado a tabuinha, coberta de pó e ilegível, a uma família que revende moedas em Londres.
O americano vendeu o pequeno tesouro com uma carta de procedência falsa, afirmando que a peça arqueológica estava dentro de uma caixa com diversos fragmentos de bronze antigos adquiridos num leilão em 1981, explicaram as autoridades.
O documento descrevendo a origem fictícia acompanhou o testemunho arqueológico todas as vezes que foi vendido e cruzando vários países.
A própria tabuinha viveu uma epopeia quando um outro proprietário voltou a vendê-la juntamente com essa carta falsa a uma casa de leilões em Londres, até que chegou às mãos da empresa americana Hobby Lobby. Este negociante de arte diz ter comprado a peça numa venda privada em 2014.
Agentes federais apreenderam finalmente a tabuinha de Gilgamesh do museu da loja de Hobby Lobby, em 2019, e o tesouro passou a estar à guarda do Departamento de Segurança Interna.
"Este resgate representa um marco importante no caminho para fazer regressar esta obra-prima rara e antiga da literatura mundial ao país de origem", disse Jacquelyn Kasulis, a procuradora dos Estados Unidos em Brooklyn. Acrescentou que "o Departamento de Justiça está empenhado em combater a venda no mercado negro de bens culturais e o contrabando de artefactos saqueados”, citada na NBC.
Devolução ao Iraque
De valor incalculável, o testemunho da mesopotâmica foi agora devolvido ao Iraque, numa cerimónia em Washington.
Essa restituição é "uma grande vitória sobre os que mutilam o património" e permite "que o povo iraquiano se reencontre com uma página de sua história", declarou Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, citada por Le Monde.
Em julho, cerca de 17.000 peças, a maioria com cerca de 4.000 anos, foram devolvidas pelos norte-americanos ao Iraque. Grande parte deste conjunto arqueológico data do período sumério, uma das civilizações mais antigas da Mesopotâmia.