França começou a deportar ciganos romenos

A França deportou quase uma centena de Roma (ciganos) para a sua Roménia natal. A deportação colectiva faz parte de uma campanha publicamente apoiada pelo Presidente Nicholas Sarkozi para desmantelar os acampamentos dos imigrantes ciganos e expulsá-los do país. Associações de direitos humanos dizem que se trata de uma medida racista e o Governo romeno avisou a França para não cair em reacções xenófobas.

António Carneiro, RTP /
Mulher Roma com crianças, pouco depois de chegar a Bucareste vinda de Lyon. A França expulsou esta quinta-feira 93 ciganos romenos. Uma medida do Presidente Sarkozi que está a provocar críticas a nível internacional. STR, EPA

Quinta-feira à tarde um voo charter partiu de Lyon para Bucareste, com 73 Roma a bordo. Horas antes, outras 14 pessoas da mesma etnia foram repatriadas para a Roménia a bordo de um voo comercial que descolou de Paris. Uma fonte do ministério dos Negócios Estrangeiros da Roménia revelou que outros voos semelhantes estão previstos para este mês e para Setembro

Cerca de 700 pessoas de etnia cigana deverão ser repatriadas para os seus países de origem, de forma faseada, no espaço de um mês, segundo anunciou na terça-feira o ministro do Interior francês, Brice Hortefeux.

Responsáveis da imigração disseram que os 93 ciganos que deixaram o território francês o fizeram "de forma voluntária". A maioria dos repatriados recebeu uma soma em dinheiro, (300 euros por cada adulto e 100 por cada criança), para os ajudar a recomeçarem a vida no seu país natal. Uma prática que segundo as mesmas fontes, é habitual em França.

Antes de partirem, alguns Roma mostraram-se pouco entusiasmados com a perspectiva de regressar ao seu país.

"Na Roménia , trabalha-se por 30 dias, 12 a 15 horas por dia, e recebe-se apenas 150 euros ao mês" disse um deles aos jornalistas antes de embarcar .

Apesar disso, à chegada a Bucareste, alguns ciganos queixaram-se à agência France Press da vida dura que tinham em França, onde, segundo disseram, havia pressões constantes, por parte da polícia, e das autoridades municipais.

Medidas Duras

A campanha para expulsar os ciganos romenos segue-se ao recente motim protagonizado por ciganos franceses, que atacaram uma esquadra em Saint-Aignan, no centro do país, para protestar contra a morte de um jovem Roma. Este tinha sido morto por tiros da polícia quando, de carro, tentou forçar a passagem por uma barreira de estrada.

A medida faz parte de um pacote de medidas de segurança avançado pelo Presidente francês, que foi eleito em 2007 com a promessa de combater o crime.

Os ciganos nascidos fora de França são frequentemente vistos a mendigar nas ruas das cidades francesas, muitas vezes transportando consigo crianças ou pequenos cães, e muitos franceses consideram-nos como um incómodo, ou pior.

O próprio Sarkozi associou publicamente os Roma à criminalidade, classificando os acampamentos ciganos como fontes de tráfico, exploração de crianças e prostituição. A 28 de Julho prometeu que os acampamentos ilegais seriam "sistematicamente evacuados". Desde então já foram desmantelados 51 campos e os seus ocupantes foram realojados em abrigos temporários. As autoridades francesas planeiam desmantelar um total de 300 destes acampamentos nos próximos três meses.

Perigo de Xenofobia

Longe de ser pacífica, esta operação foi condenada por grupos de direitos humanos, que acusam Sarkozi de estar a estigmatizar uma comunidade geralmente respeitadora da lei, para agradar aos eleitores de direita e desviar as atenções da crise económica, antes das eleições de 2012.

Na semana passada, membros da Comissão da ONU para a Eliminação da Discriminação Racial também criticaram o tom do discurso politico em França, dizendo que o racismo e a xenofobia estão a atravessar "um ressurgimento significativo" naquele país.

O Governo da Roménia também reagiu às expulsões. O ministro romeno dos Negócios estrangeiros, Teodor Baconschi , disse a uma rádio francesa "estar preocupado com os riscos de populismo e xenofobia no contexto de uma crise económica".

Já o Presidente romeno Traian Basescu mostrou-se mais conciliador, dizendo: "compreendemos os problemas causados pelos acampamentos Roma nos arredores das cidades francesas". Basescu insiste, no entanto, "no direito de qualquer cidadão da União Europeia se mover livremente no interior da UE".

"De acordo com as regras"

Mas o Governo francês insiste que as suas acções "estão plenamente de acordo com as regras europeias, e não afectam a liberdade de movimentos dos cidadãos da União Europeia, tal como são definidas pelos tratados".

O porta-voz dos negócios estrangeiros Bernard Valero disse à France Press que existe uma directiva da UE, que "expressamente permite restrições ao direito de livre circulação, por razões de ordem pública, segurança pública e saúde pública".

Os Roma são cidadãos da União Europeia, provenientes, na sua maioria, da Roménia e da Bulgária, que passaram a integrar a União em 2007. No entanto a lei francesa exige que qualquer visitante europeu que tencione permanecer no país mais de seis meses obtenha uma autorização de trabalho.

Os responsáveis franceses insistem que não estão a estigmatizar os Roma, embora a directiva do Presidente Sarkozi faça recordar ecos que muitos franceses prefeririam esquecer.

Durante a ocupação Nazi da segunda guerra mundial, as autoridades enviaram os ciganos franceses para campos de concentração. Aí permaneceram até 1946, dois anos depois de a França ter sido libertada.

 

 

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