França expulsou mais 300 estrangeiros de etnia cigana
Mais três centenas de Roma (ciganos) foram expulsos de França com destino à Roménia e à Bulgária. Depois das duas séries de voos da semana passada, dois aviões "especialmente fretados" descolaram hoje, por volta do meio-dia, do aeroporto de Orly em Paris e do aeroporto de Lyon. O Governo de Nicholas Sarkozy , manifesta-se decidido a prosseguir com o processo, apesar da vaga de críticas a nível doméstico e internacional.
Com as deportações de hoje elevam-se para 8.313 os romenos e búlgaros expulsos desde o início do ano, quando no total do ano de 2009, o número de expulsões foi de 9,875.
O Governo francês não está indiferente ao decréscimo de popularidade que as medidas estão a causar. Quarta-feira, durante o conselho de ministros, o Presidente Nicholas Sarkozy exigiu aos membros do seu Executivo que "redobrem o diálogo e a pedagogia, face às inquietudes e às interrogações. Por sua vez o primeiro-ministro François Fillon declarava-se partidário de uma acção "sem laxismo e sem excessos".
"Racismo e xenofobia"
Hoje mesmo um ministro romeno avisou que todo o processo pode acabar por derrapar no sentido do racismo e da xenofobia .
"Insisti junto das autoridades francesas para que exista uma melhor comunicação a este respeito, a fim de ajudar a sociedade civil francesa a ter uma melhor compreensão da situação" dos Roma, declarou aos jornalistas o secretário de estado romeno encarregue do dossier dos Roma, Valentin Mocanu.
"Muita gente na Roménia está inquieta com o facto de se pensar que se pode resolver o problema com acções que podem degenerar em racismo e xenofobia" declarou este membro do Governo romeno à margem dos encontros que manteve com responsáveis franceses.
Velentin Mocanu está em Paris, juntamente com o secretário de estado romeno da Ordem e da Segurança Pública, Dan Valentin Fatuloiu, tendo-se os dois responsáveis encontrado ontem com os ministros franceses do Interior, da Imigração e dos Assuntos Europeus.
Igreja Católica junta-se ás críticas Em França a operação massiva de repatriação de ciganos está a provocar acesas críticas de vários sectores. Grupos de direitos humanos, deputados da oposição e outros, criticaram o que dizem ser "uma política xenófoba".
O último a juntar-se aos críticos foi o Arcebispo de Paris, o cardeal André Vingt-Trois que se referiu ao desmantelamento dos acampamentos ciganos e às operações de deportação como "um circo".
Falando esta quinta-feira aos microfones da rádio Europe-1, o Arcebispo mencionou que gostaria de dizer ao Governo que "há linhas que não devem ser cruzadas".
Nas últimas semanas, a política de deportação dos Roma iniciada por Nicholas Sarkozy foi criticada por peritos da ONU, pelo Conselho da Europa, pelo Vaticano e pela Comissão Europeia.
A questão de ShengenNo que respeita à Comissão Europeia um porta-voz avisou ontem que as actuais tensões por causa da repatriação dos ciganos romenos e búlgaros não deverão ter repercussões sobre o alargamento do espaço Shengen que se pauta pela livre-circulação entre fronteiras.
A Roménia e a Bulgária pretendem passar a integrar a área Shengen em Março de 2011, mas o secretário de estado francês, Pierre Lellouche sugeriu recentemente que a decisão poderá ser adiada, se a Roménia não conseguir uma melhor integração da comunidade Roma.
Segundo as imprensas francesa e romena, Lellouche terá dito que a Roménia não deve ser autorizada a aderir à zona sem fronteiras da União Europeia, se apesar de receber 20 mil milhões de euros do orçamento da UE no período 2007-2013, não fizer nada para garantir a inclusão social dos Roma.
"Há dois milhões e meio de Roma na Roménia e é da responsabilidade da Roménia integrá-los. Não é a França que tem de integrar os Roma da Roménia" disse Lellouche. Refira-se que de acordo com os números oficiais romenos apenas existem 535.000 membros da etnia no país.
Franceses divididosA população francesa mostra-se dividida em relação às medidas de expulsão. Segundo uma sondagem, 48 por cento dos franceses dizem-se favoráveis à repatriação para a Roménia dos Roma que viram os seus acampamentos desmantelados. 42 por cento dos franceses dizem-se contrários à medida.
O Governo francês continua a justificar a política com a segurança pública. O ministro do Interior Brice Hortefeux disse ontem que a delinquência de nacionalidade romena tinha aumentado 138% em 2009 na região de Paris. (3.151 autos contra 1.323 registados em 2008).