Mundo
Franceses entre a tolerância, o racismo e a discriminação
Há um ligeiro declínio no "índice de tolerância" em França, revela um relatório agora conhecido. Os estereótipos mantêm-se e cerca de 1,1 milhões de pessoas admitiram ser vítimas de atos racistas e de discriminação em 2019 no país.
A Comissão Consultiva Nacional de Direitos Humanos (CNCDH) divulgou esta quinta-feira um relatório sobre a luta contra o racismo, o anti-semitismo e a xenofobia que revela "um aumento de atos e discursos racistas" em 2019.
"Embora o índice de tolerância permaneça quase estável, o preconceito, a discriminação e os atos racistas permanecem e exigem a co-construção de políticas apropriadas para responder a estes", lê-se no documento enviado ao primeiro-ministro francês, Édouard Philippe, no mesmo dia.
Baseado no inquérito a 1323 pessoas, este relatório surge numa altura em que o país e o mundo assistem a manifestações contra o racismo e a violência policial.
A tolerância às várias étnias em França não tem mudado muito nos últimos anos. Segundo o relatório, o índice oscilou ligeiramente este ano. No entanto, a aparente tolerância francesa não protege as minorias dos preconceitos, o que parece um paradoxo.
De fato, os estereótipos, a discriminação e os atos racistas persistem, mesmo que às vezes não sejam expressos de forma direta.
A tolerância às várias étnias em França não tem mudado muito nos últimos anos. Segundo o relatório, o índice oscilou ligeiramente este ano. No entanto, a aparente tolerância francesa não protege as minorias dos preconceitos, o que parece um paradoxo.
De fato, os estereótipos, a discriminação e os atos racistas persistem, mesmo que às vezes não sejam expressos de forma direta.
"Como um vírus, o racismo sofre mutação e a cada mutação torna-se mais perigoso", alertam os autores do relatório.
Segundo os autores, os velhos estereótipos que definem a inferioridade física e moral das minorias dão lugar a argumentos "pseudo-culturais" que estabelecem uma incompatibilidade entre os valores e os costumes de certas "raças" com os dos franceses. "Discursos nos quais prosperam clichés", acrescentam.
Os dados podem comprová-lo: 45 por cento dos inquiridos consideram que "o Islão é uma ameaça à identidade da França"; 37 por cento acreditam que "a imigração é a principal causa de insegurança" (mais três por cento do que no ano anterior)); 59 por cento dizem que "muitos imigrantes vêm à França apenas para se beneficiar da proteção social"; 60 por cento pensam que "os ciganos costumam explorar crianças" (menos três por cento do que nos inquéritos anteirores); e 34 por cento continuam a pensar que "os judeus têm uma relação especial com o dinheiro".
Estes índices revelam disparidades, sendo que os negros e judeus são os que estão no topo da lista das minorias discriminadas, segundo-se os magrebinos, os muçulmanos e, por último, os ciganos.
No entanto, "enquanto a minoria negra é, como a minoria judaica, a que tem a melhor imagem, é diariamente exposta a preconceitos ofensivos e numerosas discriminações", clarifica o relatório concluído em março, ainda antes das manifestações das últimas semanas.
O documento destaca ainda que os negros - que são uma das minorias mais aceites pelos franceses - são particularmente discriminados, principalmente no acesso à habitação e ao emprego, onde "muitas vezes ainda ocupam um lugar subordinado na sociedade francesa".
Segundo a CNCDH, "além das ofensas, é ao mesmo tempo uma história, uma cultura e um conjunto de preconceitos que estão na raiz do racismo anti-negro".
Nesse sentido, a organização apela a sejam desenvolvidas "investigações que permitam um melhor conhecimento da discriminação", assim como ferramentas como testes, "em especial nos serviços públicos".
Nesse sentido, a organização apela a sejam desenvolvidas "investigações que permitam um melhor conhecimento da discriminação", assim como ferramentas como testes, "em especial nos serviços públicos".
O relatório apela ainda à realização de "campanhas de comunicação contra estereótipos em relação aos negros, em particular mostrando sua diversidade social, económica e profissional".
É preciso "focar mais os programas escolares nas raízes multiculturais da França e as suas contribuições para a cultura nacional", de acordo com o CNCDH, que recomenda ao Conselho Superior de Audiovisual (CSA) a "incentivar a representação dos homens e dos mulheres negras, inclusive em cargos de especialistas".
É preciso "focar mais os programas escolares nas raízes multiculturais da França e as suas contribuições para a cultura nacional", de acordo com o CNCDH, que recomenda ao Conselho Superior de Audiovisual (CSA) a "incentivar a representação dos homens e dos mulheres negras, inclusive em cargos de especialistas".
Embora neste documento os autores não tenham mencionado o "ódio racial" na Internet, apelam ao Governo francês para que crie uma autoridade reguladora independente, responsável por impedir e responder rápida e adequadamente ao ódio veiculado por estes meios.