Freedom.gov. EUA criam site para ver conteúdo bloqueado na Europa

Freedom.gov. EUA criam site para ver conteúdo bloqueado na Europa

Os Estados Unidos criaram um portal online para ver conteúdo bloqueado na Europa e no mundo, que poderá incluir discursos de ódio e propaganda terrorista. A informação é avançada numa investigação da agência Reuters, que afirma que a iniciativa foi criada de forma a contornar a legislação online europeia.

RTP /
Ken Cedeno - Reuters

O portal freedom.gov servirá, de acordo com a investigação da Reuters, para contornar as regras europeias de bloqueio a conteúdo considerado de ódio e terrorista, algo que, de acordo com uma fonte citada na investigação, é “uma declaração política combativa”.

“As divergências do Governo dos EUA com a [União Europeia] sobre a liberdade de expressão não são novidade em termos de política”, afirma a fonte, mas considera que “um portal desse tipo vai além, declarando publicamente que o Governo dos EUA se preocupa com a liberdade de expressão, mesmo entre os nossos aliados na Europa”.Apesar de ser aparentemente desenvolvido pelo Departamento de Estado, a página DomainTools, que regista os domínios da internet, mostra que o portal tem como organização administradora a Agência de Cibersegurança e Segurança das Infraestruturas (CISA na sigla em inglês), que faz parte do Departamento de Segurança Interna, e deverá ser liderado pela subsecretária para a Diplomacia Pública, Sarah Rogers.


Segundo o jornal britânico The Guardian, o diretor interino da CISA, Madhu Gottumukkala, confirmou que a agência gere o domínio .gov, “para assegurar que apenas organizações verificadas pelo governo dos Estados Unidos recebem estes domínios fidedignos”. No entanto, afirma que o conteúdo do site é referido para o Departamento de Estado.
Preocupação com a promoção de conteúdo de ódio banido na Europa
De acordo com as fontes citadas pela Reuters, o novo portal aparenta ser um substituto do programa governamental norte-americano Internet Freedom, cujo financiamento foi cortado recentemente e que contribuía com o financiamento de VPNs, sobretudo em países como o Irão, China e Coreia do Norte que sofrem de censura online.

No entanto, o consultor de segurança digital Andrew Ford Lyons, citado pelo Guardian, afirma que o projeto pode não seguir o objetivo de proteção da privacidade em regimes autoritários, mas “ajudar, por exemplo, um homem revoltado em Schöndorf [na Alemanha] a ver tweets neonazis de alguém no Arkansas”.

“O que se está a propor agora é a concentração do tráfego por meio de uma agência federal dos EUA, organizada e mantida em sigilo – em oposição a múltiplos projetos de liberdade na internet, de código aberto e que preservem a privacidade”, avisa Lyons.Desde a eleição de Donald Trump para o seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, em 2024, que têm sido acentuadas as críticas em relação às legislações europeia sobre o controlo do discurso de ódio nas redes sociais e de promoção de conteúdo considerado de ódio e de promoção de atividades terroristas.

Na Conferência de Segurança de Munique do ano passado, o vice-presidente norte-americano, JD Vance, acusou a Europa de estar a “recuar” na liberdade de expressão, mais concretamente na promoção de conteúdo por parte de partidos de direita radical, marcada por publicações de ódio contra judeus, minorias e imigrantes e de desinformação.

Já a Estratégia norte-americana de Segurança Nacional, publicada em novembro, afirmava que a Europa enfrentava uma “erosão civilizacional” e que um dos desafios do velho continente era as “atividades da União Europeia e de outros órgãos transnacionais que colocam em causa a liberdade política e soberania […] criando conflitos, censura da liberdade de expressão e supressão da oposição política”, provocados pelas políticas de migração.

Além disso, responsáveis políticos norte-americanos têm criticado políticas europeias que, alegadamente, são dirigidas contra políticos de direita em França e na Alemanha, citando leis como a Lei dos Serviços Digitais da União Europeia e a lei britânico de Segurança Online do Reino Unido como legislações que “violam” a liberdade de expressão, por exigirem a retirada de conteúdo online classificado como propaganda terrorista, de discurso de ódio e de desinformação.Se, por um lado, a Alemanha emitiu quase 500 ordens de remoção de conteúdos em 2024, por serem considerados de incitamento ao terrorismo, a rede social X de Elon Musk, em dezembro, foi multada pela União Europeia em 120 milhões de euros por violar a Lei dos Serviços Digitais.


Uma das regras violadas foi a permissão o uso enganoso do selo azul, que “expõe os utilizadores a fraudes, falsificações de identidade e outras formas de manipulação por atores maliciosos”, como explicado na época pela Comissão Europeia.

As fontes citadas pela investigação também afirmam que o projeto estava previsto ser anunciado na Conferência de Segurança de Munique, na semana passada, mas foi adiado, alegadamente devido a preocupações sobre o plano.

No entanto, um porta-voz do Departamento de Estado negou que o anúncio do projeto tenha sido adiado e que é “impreciso” o levantamento de preocupações e que “a liberdade digital é uma prioridade do Departamento de Estado, e isso inclui a proliferação de tecnologias de privacidade e de contorno da censura como VPN”.
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