Frota de barcos-robôs pretende criar mapa detalhado do fundo do mar

Estamos no século XXI e este facto poderia sugerir que já conhecemos relativamente bem o nosso planeta. Mas na realidade não é assim e o fundo dos oceanos é ainda um "mundo novo" por descobrir.

Nuno Patrício - RTP /

Apesar de milhares de embarcações diariamente cruzarem a superfície dos sete mares, por baixo destes existe ainda um verdadeiro e misterioso tesouro no que respeita ao fundo oceânico.

Com os oceanos a cobrirem 71 por cento do planeta, ou seja mais de 361 milhões de quilómetros quadrados, este vasto manto aquoso esconde uma superfície que pode trazer verdadeiras surpresas.

E são esses "baús", ainda fechados pela natureza, que a organização internacional Gebco (Carta Batimétrica Geral dos Oceanos) e a Fundação Nippon pretende desvendar e dar a conhecer.

Para isso uniram esforços e estão a construir um conjunto de embarcações, autónomas, com o intuito de analisar e construir um mapa do fundo do mar.

Porque ainda não conhecemos "bem" o fundo oceânico
Se o leitor abrir o Google Earth ou o Maps, a imagem gerada apresenta-nos um planeta detalhado em que os territórios continentais estão fotografados em alta resolução, e uma zona marítima com uma apresentação gráfica ainda de forma generalizada e "grosseira".

Apesar da apresentação das principais "cicatrizes" geológicas no fundo marítimo, estas foram captadas principalmente por scanners orbitais (satélites), em conjunto com observações realizadas por barcos de investigação científica.

A dificuldade em obter uma imagem mais nítida do fundo marinho prende-se com o facto de estes terem em média cerca de quatro quilómetros de profundidade. Daí ser interessante dizer que hoje em dia a humanidade conhece melhor a superfície da Lua, ou de Marte, do que o fundo dos oceanos.


Uma frota autónoma, não tripulada para conhecer as profundezas do mar

Como anteriormente referido, existem mapas globais do fundo do mar, no entanto, a resolução está na faixa de quilómetros, e as estruturas geológicas menores não são visíveis.

Da totalidade oceânica, apenas 15 por cento do fundo do mar estão cartografados com algum detalhe, sendo a maioria junto às orlas costeiras.

Mas o projeto Seabed 2030 quer mudar este panorama até ao final da década.

A ideia é simples e consiste em ter um conjunto de barcos totalmente autónomos, sem tripulação e controlados por sistema de localização global (GPS), com equipamento de monitorização e sonares que vão realizar uma "ecografia" ao fundo, para depois se construir um mapa "visual" detalhado das profundezas marinhas.

O projeto Seabed 2030, além de ser encabeçado pela organização internacional Gebco (Carta Batimétrica Geral dos Oceanos) e a Fundação Nippon é apoiado por outras fundações privadas e parceiros industriais, incluindo a empresa do Texas Ocean Infinity.

A empresa forneceu um conjunto de dados com 120.000 quilómetros quadrados de fundo do oceano, que foi recolhido na operação de busca do voo MH370 no Oceano Índico, na Austrália, em janeiro de 2018.
Barcos com motores diesel-elétricos
Uma das questões levantadas na construção das embarcações foi a forma de locomoção.

Inicialmente a ideia era criar veículos neutros em termos de emissão de dióxido de carbono (CO2), mas toda a estrutura que envolve locomoção, equipamento científico, transmissão de dados e navegação GPS, envolve um suporte energético de monta.

Créditos: Sea-Kit International Ltd

Utilizando o sol e geradores eólicos como suporte energético principal, estas embarcações produzem até 90 por cento menos CO2, quando recorrem ao sistema de alimentação de combustível líquido (diesel), em comparação com os navios de pesquisa usados anteriormente, tornando esta a "empresa mais ambientalmente sustentável do setor", refere a Ocean Infinity com confiança.

Os navios viajam até doze nós, cerca de 22 quilómetros hora e a Ocean Infinity avança que o alcance do modelo maior tem uma autonomia para 9260 quilómetros, tendo a embarcação menor o de 6800 quilómetros. Isso significa uma estadia no mar de cerca de duas semanas até novo reabastecimento em terra ou através de um navio cisterna.
Um navio multifacetado e de socorro em casos de emergência
O projeto "Seabed 2030" consiste no mapeamento oceânico. Mas pode ir além deste programa. Os barcos podem fazer outras tarefas: entre elas, as empresas do setor de petróleo e gás podem usar este sistema para encontrar depósitos no fundo do mar ou servirem de salva-vidas em caso de emergência em alto mar, caso se encontrem nas imediações.

Um outro sistema já equacionado em teoria, seria criar uma frota automática de transporte de petróleo e gás das plataformas oceânicas no Mar do Norte, diz Ocean Infinity.


De acordo com Oliver Plunkett, CEO da Ocean Infinity, em entrevista à BBC, estão a ser construídos onze barcos-robots, tendo os mais pequenos 21 metros de comprimento, os maiores 37 metros. A intenção é que cada grupo seja composto por três ou quatro embarcações a operar em parellha.

No futuro a robotização não deve servir só os mecanismos e veículos terrestres, procurando satisfazer a ciência e a economia de forma ambiental, potenciando os recursos da automatização.
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