Funerais com `striptease` revelam problemas dos trabalhadores migrantes
A proliferação do `striptease` para amenizar os funerais, nalgumas zonas rurais chinesas, suscitou um enorme alvoroço, mas revelou também os problemas sexuais de 140 milhões de trabalhadores migrantes da China.
Tudo começou, este ano, com uma reportagem da estatizada Televisão Central da China (CCTV), que revelou o uso das representações eróticas em Fonte Quente (Wen Quan), uma localidade de economia afortunada graças aos negócios criados à volta das suas saudáveis águas termais.
Segunda reza a tradição popular na região, quando um ancião morre, os familiares homenageiam-no com um funeral em que não pode faltar nem a música (com uma típica corneta acústica, tocada também nos casamentos), nem encenações de ópera.
Contudo, nos últimos anos, as companhias artísticas encontraram uma arma muito mais eficaz para atrair o público e conseguir funerais lotados, o que é considerado como uma honra para o falecido.
Espectáculos eróticos com `striptease`, chistes picantes e intercâmbios eróticos com o público tornaram-se habituais e arrastaram para os enterros centenas de operários migrantes deslocados para a próspera zona, situada na Província Oriental de Jiangsu.
Afastados de casa e marcados pela frustração sexual que caracteriza este grupo, segundo estudos oficiais, os operários iam aos funerais de aldeia em aldeia, em busca de satisfação gratuita.
Quando mais remota e pequena era a aldeia, explicava a reportagem da televisão, mais picantes eram os enterros com nus integrais de actores e actrizes, e aproximações eróticas aos espectadores que deixavam muita gente boquiaberta.
Como manda a tradição, as famílias mais poderosas mostravam o seu estatuto contratando duas companhias que deveriam competir em talento não só musical, como tradicionalmente, mas também erótico.
Na aldeia de Kongbai, por exemplo, uma actriz de uma das companhias saltou para o palco e tirou a roupa, o que levou uma concorrente da companhia rival a «levantar a saia e tirar as calças».
Após a transmissão da reportagem, a resposta do governo não se fez esperar e cinco organizadores de `striptease` foram detidos, enquanto alguns responsáveis locais foram suspensos.
«Não me agradam estes espectáculos. A gente de hoje em dia perdeu a moral e o respeito pelos mortos», disse uma moradora em Donghai, distrito a que pertence Fonte Quente.
Por seu lado, um porteiro desta última localidade considerou que aquelas encenações «prejudicam o ambiente social», na linha do que afirmaram muitos académicos.
Contudo, num país com um rendimento por pessoa de 1.100 euros por ano, os lucros que representam essas representações, que podem atingir os 400 euros por mês, para cada actor, são difíceis de desdenhar.
De qualquer forma, o escândalo trouxe à luz do dia as necessidades dos 140 milhões de migrantes rurais que vivem nos centros industriais chineses, em precárias condições de vida, com regimes exaustivos de trabalho, afastados da família e sem tempo nem recursos para satisfazerem os seus desejos sexuais.
Um estudo do Ministério da Saúde alertou para o facto de 88 por cento daqueles trabalhadores sofrerem de «depressão sexual», o que os leva a recorrerem a películas pornográficas e, nos casos mais extremos, à violação, segundo o diário China Daily.
Segundo Wu Yiming, decano do Departamento de Sociologia da Universidade de Nanquim, ignorar esta questão «levará a problemas físicos e psicológicos», pelo que é urgente apresentar medidas.
Entre elas, endurecer a legislação para castigar os patrões que abusem dos imigrantes, criar centros de lazer, onde «possam jogar às cartas ou ver filmes saudáveis» ou distribuir preservativos gratuitamente para evitar a propagação de doenças infecciosas, disse o perito.
Pode-se também seguir o exemplo dos «ninhos de amor», criados pelas autoridades da próspera Província Oriental de Shenzhen, apartamentos baratos alugados aos migrantes, quando recebem as visitas das mulheres.