Gaia vai cartografar a Via Láctea em 3D

A Agência espacial Europeia lançou hoje para o espaço o satélite Gaia cuja missão é criar nos próximos cinco anos um mapa tridimensional de mais de mil milhões de estrelas com uma precisão sem precedentes. Gaia é capaz de distinguir a posição de um cabelo a mil quilómetros de distância.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Gaia irá fazer o primeiro mapa da Via Láctea em 3D com uma precisão e detalhes sem precedentes ESA

De acordo com a ESA "o primeiro objetivo de Gaia é fazer o estudo da nossa galáxia e da sua vizinhança próxima, para cartografar a Via Láctea em 3D e responder a questões sobre as suas origens e evolução."
  O satélite da ESA hoje lançado possui dois telescópios que trabalham com outros três equipamentos científicos para examinar com precisão a posição das estrelas e as suas velocidades e dividir a sua luminosidade ao longo do espectro, permitindo a sua análise.
Girando lentamente numa órbita terrestre estável a 1.5 mil milhões de quilómetros, num ponto Lagrange conhecido como L2 que evita que o satélite seja afetado pela sombra da Terra, Gaia irá varrer repetidamente toda esfera celeste, recolhendo uma torrente de dados diários que implica uma vasta equipa de astrónomos para os analisar e publicar, tornando-os acessíveis tanto à comunidade científica como a astrónomos amadores.

O satélite deverá permitir "descobrir mais de dez mil planetas para além do Sistema Solar e centenas de milhares de asteroides e cometas dentro da Galáxia". Espera-se que "revele ainda dezenas de milhares de estrelas falhadas e de supernovas e que teste a famosa teoria Geral da Relatividade de Einstein" afirma a Agência Espacial Europeia.

Siga a evolução de Gaia através do site da ESA ou no blog a ele dedicado
Participação portuguesa
Na missão Gaia participa desde 2006 uma equipa científica portuguesa liderada pelo professor André Moitinho de Almeida, da Faculdade de Ciências da UL.

"Gaia tem um significado histórico para a ciência em Portugal" refere. "Trata-se da primeira missão do Programa Científico da ESA a contar com a participação de uma equipa nacional na sua definição e implementação."

A equipa portuguesa inclui investigadores e engenheiros das Universidades de Lisboa, Coimbra, Porto e UNINOVA, cobrindo uma variedade de competências que incluem a Astronomia, Inteligência Artificial, Bases de dados, programação, Óptica e Geodesia.

O trabalho da equipa portuguesa pode ser acompanhado no portal do astrónomo http://www.sp-astronomia.pt/Gaia.

A sua responsabilidade passa pelo desenvolvimento do sistema de pesquisa e visualização dos dados que Gaia irá emitir e que irá ser analisada por 400 cientistas de todo o mundo.

O financiamento tem sido assegurado pelas instituições envolvidas, pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pelo Sétimo Programa Quadro da Comunidade Europeia.

"A aventura tem sido considerável, desde a nossa integração no consórcio internacional que implementa e opera a missão, até à obtenção de financiamento para uma corrida de fundo num país onde não existe planificação da Ciência a longo prazo" recorda Moutinho de Almeida, que sublinha o facto desta participação ter aberto caminho à colaboração lusa noutras missões científicas da ESA.

Além da colaboração da equipa científica, várias empresas portuguesas foram subcontratadas para testes, simulações e criação de software dos telescópios de Gaia.
Mil milhões de estrelas
Gaia foi lançado com sucesso às 09:12:19 GMT num foguetão Soyuz-STB/Fregat-MT, a partir da base de ESA em Kourou na Guiana Francesa.

Após o lançamento o satélite irá demorar cerca de um mês até atingir a posição pretendida.

Irá então desdobrar uma "saia" de 10 m de diâmetro, que vai dar sombra permanente aos telescópios permitindo que permaneçam a -100ºC, e captar energia solar para gerar eletricidade e operar todos os instrumentos, já que a parte inferior do escudo está coberta de painéis solares e ficará permanentemente virada para o Sol.

Para completar a sua missão, Gaia deverá permanecer pelo menos cinco anos em órbita. Nesse período vai monitorizar cada uma das estrelas-alvo pelo menos 70 vezes, registando com precisão as suas posições, distâncias, movimentos e mudanças de brilho.

Gaia deverá descobrir nos próximos cinco anos mais de mil milhões de estrelas e determinar com alta precisão as suas características

Espera-se que descubra centenas de milhares de novos objetos celestes, tais como planetas extra-solares e anãs castanhas, e observe centenas de milhares de asteróides dentro do nosso próprio Sistema Solar.

A missão vai ainda estudar cerca de 500 000 quasares distantes.
Detalhe nunca visto
O mapa cartografado por Gaia deverá ser 100 vezes mais detalhado do que os anteriores, alargando igualmente o nosso conhecimento da extensão da Via Láctea.
Veja aqui um mapa 3D da Galáxia que Gaia virá a detalhar com maior precisão
O satélite da ESA vai mapear os movimentos, temperatura e composição de mais de mil milhões de estrelas, num census estelar que deverá ajudar a encontrar respostas a diversos problemas relacionados com a origem, estrutura e evolução da Via Láctea.

Por exemplo, Gaia irá identificar quais as estrelas que são restos de galáxias menores há muito absorvidas pela Via Láctea. Ao estudar a movimentação a larga escala das estrelas irá igualmente analisar a distribuição da "matéria negra", uma substância invisível que se acredita ser responsável por manter unida a nossa Galáxia.
Herdeira de Hipparcos
Gaia vai ser capaz de medir as posições de todos os seus alvos com uma magnitude 20, cerca de 400 000 vezes mais ténue do que o olho humano é capaz de ver, conseguindo medir as posições de objetos com uma luminosidade 15 (4 000 vezes mais ténue do que o olho humano) com uma precisão de 24 microarc-segundos.

Isto significa que a posição das estrelas mais próximas do Sol será medida com uma precisão de 0.001%. Até a posição das estrelas próximas do centro da Galáxia, a 30 000 anos-luz do Sol, será medida com uma precisão de 20%.

Há 25 anos, a missão Hipparcos permitiu catalogar mais de 100 000 estrelas com alta precisão. Gaia vai multiplicar esses número por dez, medindo a posição de cada estrela e seus movimentos com uma precisão 200 vezes mais precisa e enviando 10 000 vezes mais dados.

O custo da missão está estimado em 940 milhões de euros.
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