Galiza alicia médicos portugueses com dobro do salário

A Galiza abriu um concurso para contratar médicos de família e pediatras portugueses, oferecendo-lhes mais do que o dobro do salário que ganhariam em Portugal no início de carreira. A Ordem dos Médicos e a Associação de Medicina Geral e Familiar mostram-se preocupadas com o eventual êxodo, mas compreendem as motivações dos profissionais que escolham sair do país.

RTP /
A Galiza oferece aos médicos portugueses uma retribuição anual bruta de 61.500 euros Regis Duvignau - Reuters

O Serviço Galego de Saúde (Sergas) oferece aos médicos portugueses uma retribuição anual bruta de 61.500 euros, o que se traduz em aproximadamente 4.390 euros mensais.

Em Portugal, um médico em início de carreira recebe cerca de 28 mil euros brutos por ano, o correspondente a dois mil euros por mês.

A informação foi avançada pelo Jornal de Notícias, que dá ainda conta de que esta é a primeira vez que a Galiza procede à contratação de médicos portugueses. Os contratos poderão ter a duração máxima de três anos.
Ameaça para o SNS
A Ordem dos Médicos já se mostrou preocupada com a eventual emigração de clínicos para a Galiza, numa altura em que Portugal tem quase 700 mil utentes sem médico de família. A região de Lisboa e Vale do Tejo é a mais afetada.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, diz compreender a motivação dos médicos que escolhem emigrar para a Galiza e acusa o Ministério da Saúde de nada fazer para garantir que os profissionais portugueses optem por trabalhar no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

“Eles oferecem melhor salário, melhores condições de trabalho, melhor acesso à formação e a equipamentos e dispositivos”, explica Miguel Guimarães, frisando que o SNS não iguala estas ofertas.

“É mau para o nosso país em termos práticos porque nada está a fazer para reter os médicos portugueses”, considera o bastonário. “O Ministério da Saúde e o Governo dizem que querem apostar no SNS mas, na prática, não é o que estão a fazer”.

“Isto é absolutamente lamentável e, nesse tipo de condições, é difícil que depois não haja falta de pediatras, médicos de família, anestesiologistas, dermatologistas e por aí adiante”.
“Não estamos a planear bem”
Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), também se mostrou preocupado com a possível saída dos médicos para a Galiza, considerando que estes profissionais fazem falta a Portugal.

“Nós não estamos a planear bem, não estamos a programar e a enquadrar com novas unidades. O Ministério da Saúde, lamentavelmente, veio projetar para este ano a aquisição de novas vinte unidades (de saúde), quando nós precisamos de duzentas”, explicou.

À semelhança do bastonário, também o presidente da APMGF disse compreender as motivações dos jovens médicos que optem por sair de Portugal.

“Se não estão aqui contratados, se não estão aqui devidamente enquadrados (…) se têm uma proposta a ganhar mais dinheiro, é muito fácil serem aliciados” a irem para os países vizinhos.
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