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Gaza inicia Ramadão em clima de cessar-fogo e incerteza de novo conflito

Gaza inicia Ramadão em clima de cessar-fogo e incerteza de novo conflito

Em Gaza, as famílias entraram esta terça-feira no Ramadão, período de jejum consagrado no calendário islâmico. Apesar da ordem de cessar-fogo, o estado de espírito é de incerteza quanto ao futuro.

RTP /
Mahmoud Issa - Reuters

Iniciado a 10 de outubro do ano passado, o cessar-fogo não veio restabelecer a tranquilidade nos abrigos para refugiados.

Este é o terceiro Ramadão que passamos deslocados. Perdemos as nossas casas e as nossas famílias. Aqui no campo temos vizinhos e amigos que partilham a mesma dor e sofrimento, e todos queremos apoiar-nos”, explicou Maisoon al-Barbarawi, que ajuda na preparação do pão e das tâmaras para a distribuição pelos palestinianos no campo de refugiados de Bureij.

A trégua mantém-se frágil e os palestinianos em Gaza continuam a depender da ajuda de organizações humanitárias, consequência do aumento dos preços e do poder de compra cada vez mais enfraquecido.

De acordo com os relatórios do Programa Alimentar Mundial (PAM) e do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA), houve, no entanto, uma melhoria na disponibilidade de certos alimentos.

“Hoje recebemos ajuda, o que vai aliviar a minha preocupação sobre o que vamos comer para quebrar o jejum. Guardei uma pequena quantia para comprar um quilo de carne. O jejum requer proteína, mas não há eletricidade, não há infraestruturas, não há frigoríficos para armazenar”, confessou Hanan al-Attar à Al Jazeera, no primeiro dia do Ramadão.

Este ano, as famílias esforçam-se, essencialmente, por manterem a esperança e lidarem da melhor forma com a escassez e com uma paz que se mantém “frágil”.

Infelizmente, o Ramadão não mudou a nossa realidade. Há dois anos que cozinhamos em fogo aberto, o vento apaga a chama e o meu filho tenta protegê-la com plástico. Consegui encher um cilindro de gás de oito quilos há dois meses e recusei-me a usá-lo até ao Ramadão. É como um tesouro para nós”, admitiu Hanan al-Attar.

“O Ramadão vai e vem, mas a nossa situação permanece a mesma”, garantiu Maisoon. Mãe de dois filhos, encontrou refúgio em Bureij depois de perder a casa no sudeste de Gaza no início da guerra.

“Os meus meios são limitados, mas o que importa é que as crianças se sintam felizes”, explicou, apresentando as “modestas” decorações da tenda, preparadas para receber o Ramadão e “sair da atmosfera de luto e tristeza”.

Habituados a “rezar pela morte”, porque ansiavam por comida, os palestinianos em Gaza preparam este período de jejum com “alegria a partir do nada”, apesar da incerteza do que pode vir a acontecer.

“A situação não está completamente calma, a guerra não parou de verdade”
, garantem em Bureij. O medo de que os bombardeios voltem a qualquer instante é partilhado entre todos, que recordam o sagrado mês islâmico do último ano, marcado pela escalada dos ataques israelitas em Gaza.

A nova fase do conflito obrigou ao encerramento de passagens fronteiriças e à proibição da entrada de ajuda alimentar na região. A crise de fome humanitária durou de março a setembro de 2025.
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