"Genocídio arménio" reabre discussão sobre a História alemã

Não se trata agora do Holocausto nazi, que é oficialmente assumido e estigmatizado pela Alemanha Federal. Trata-se de um massacre anterior - aquele cometido pela Alemanha contra os povos africanos dos hereros e dos nama.

RTP /
O presidente alemão Roman Herzog, ao reconhecer, em 1998, na presença do homólogo namibiano Sam Nujoma, um "capítulo negro" na História da Alemanha - o massacre dos herero e dos nama Reuters

Ao aprovar, ontem, uma resolução classificando como "genocídio" a deportação e extermínio de 1,5 milhões de arménios em 1915, o Bundestag (parlamento alemão) não apontava apenas um dedo acusador ao Império Otomano - e, por extensão, à Turquia, sua sucessora actual -, mas assumia também a parte da Alemanha nas responsabilidades desse genocídio.

A Alemanha era aliada do Império Otomano quando foi cometida a grande matança do povo arménio e nada fez para refrear o banho de sangue orquestrado pela potência amiga. Ao assumir as responsabilidades sobre essa omissão, o Bundestag desarma a crítica turca sobre a parcialidade da resolução ontem aprovada.

Contudo, a aprovação por larga maioiria e amplo consenso do texto sobre o "genocídio arménio" oferece também alguns flancos à crítica. Um deles é o de se tratar de uma resolução que coloca o Holocausto em contexto histórico, realçando a existência de antecedentes e, em certo sentido, relativizando-o. O Holocausto de 1941-1945 não teria sido, assim, um facto histórico único e pioneiro, e sim um desenvolvimento de algo que já vinha anunciado desde 1915.

Instaurar ao Bundestag, apenas com este fundamento, um processo de intenções "relativizadoras" do Holocausto seria certamente abusivo. Mas o historiador Jürgen Zimmerer, entrevistado em Der Spiegel, avança com uma outra crítica: tal como reconhece o genocídio arménio, o Bundestag devia assumir também o "genocídio herero".

Segundo Zimmerer, "este genocídio ocorreu onze anos antes dos massacres dos arménios. É estranho que o Bundestag até agora não tenha tido a coragem de admitir claramente esta culpa alemã". Também o líder parlamentar dos Verdes, Cem Özedmir, reconheceu que "o genocídio dos hereros e dos nama está à espera de ser trabalhado".

Zimmerer aceitou o argumento turco de que o parlamento não é o lugar certo para emitir um veredicto sobre temas em discussão na comunidade investigativa. Mas sublinhou que, tratando-se de admitir responsabilidades alemãs, como é a da cumplicidade com o genocídio arménio, é justo aprovar uma resolução no Bundestag.

E acrescentou que a omissão de qualquer pronunciamento sobre o genocídio herero, embora não desacredite a resolução sobre o genocídio arménio, "transmite a impressão de que o Bundestag usa dois pesos e duas medidas. Isso joga a favor dos críticos, tanto mais que a resolução irrita um parceiro [a Turquia] de quem nos tornámos completamente dependentes na questão dos refugiados. A resolução só se torna credível, se se lhe seguirem acções: por exemplo, um reconhecimento simbólico ou material das vítimas arménias. Senão, há só palavras vazias".
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