Gibraltar e La Línea perdem fronteira mas mantêm desigualdade

Gibraltar e La Línea perdem fronteira mas mantêm desigualdade

Gibraltar e La Línea deixam na quarta-feira de ter um vedação a separá-las, mas continuarão a ser as duas localidades europeias que partilham um mesmo território com mais desigualdade, sublinhou o autarca da cidade espanhola, Juan Franco.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Jon Nazca - Reuters

"Não o digo eu, são as estatísticas. Não há duas localidades que partilhem território [na União Europeia] onde haja esta desigualdade", disse em entrevista à agência Lusa o presidente da câmara de La Línea de la Concepción, no sul de Espanha.

Juan Franco dá o exemplo dos níveis de desemprego, com La Línea a registar uma das taxas mais altas de Espanha (perto de 35% em 2025, segundo dados oficiais). Em Gibraltar, território britânico que partilha toda a sua fronteira terrestre, de cerca de 1,2 quilómetros com La Línea, a situação é de pleno emprego.

"E estamos na melhor situação quanto ao desemprego desde 2007, praticamente 20 anos. E há 7.600 desempregados na cidade", sublinhou.

Neste contexto, Juan Franco pediu que o acordo entre a UE e o Reino Unido para Gibraltar, que será assinado hoje em Bruxelas e entrará em vigor na próxima meia-noite, seja acompanhado por medidas e ajudas que se traduzam numa oportunidade de desenvolvimento para La Línea de la Concepción e toda a comarca espanhola Campo de Gibraltar, que engloba diversos municípios.

O acordo regula a relação de Gibraltar com o resto da UE na sequência do Brexit, a saída do Reino Unido do bloco europeu, aprovada há 10 anos num referendo.

O caso `sui generis` de Gibraltar ditou que fosse necessária uma década para chegar a um acordo, que teve de ser muito específico e não conseguiu enquadrar-se no entendimento geral de 2020 a que chegaram Reino Unido e UE.

O acordo "é positivo porque a alternativa tinha sido um desastre", considerou Juan Franco.

Essa alternativa seria manter a vedação que existe desde 1909 em redor de Gibraltar e a separa de La Línea e um posto fronteiriço com duplo controlo de passaportes e mercadorias, que teria de ser reforçado, para respeitar as regras das fronteiras externas da UE.

Nestes dez anos, manteve-se, genericamente, a situação que existia antes do Brexit e tanto Gibraltar como La Línea viveram num limbo jurídico que permitiu a entrada (e saída) diária de 15 mil pessoas no território britânico para trabalhar (maioria a pé), assim como o abastecimento por empresas espanholas da colónia inglesa.

É preciso ainda juntar os turistas que permanentemente visitam Gibraltar, cruzando o único ponto de passagem terrestre e os gibraltarenhos que fazem em La Línea as suas compras ou aproveitam diversos serviços da cidade espanhola.

Em alguns momentos, houve notícias de longas filas para entrar em Gibraltar, formadas sobretudo pelos trabalhadores, quando as autoridades policias dos dois lados decidiam aplicar as regras de uma fronteira externa da UE, numa forma de alertar os políticos para a necessidade de um acordo que regularizasse a situação.

Com o acordo que por fim foi alcançado, tanto a vedação que separa Gibraltar de La Línea como o controlo fronteiriço deixam de existir na próxima meia-noite.

Nascido em 1975 em La Línea de la Concepción, Juan Franco sabe por experiência própria e relatos familiares e da história como a cidade nasceu, cresceu e sempre dependeu do "calor económico de Gibraltar".

"A passagem pela fronteira é vital. É preciso ter em conta que só na nossa cidade vivem 11 mil pessoas que trabalham em Gibraltar. Outras 5.000 vivem nas aldeias e cidades em redor. Uma empresa de La Línea tem em média um terço da sua faturação com clientes gibraltarenhos. Ou seja, se tivéssemos ali uma barreira seria um autêntico desastre económico e social", explicou.

O autarca considerou que o acordo é positivo, mas também insuficiente e, em alguns pontos, "deixa as coisas um pouco para um futuro um tanto indeterminado", como a criação de "um fundo de coesão social" sem definir "quem o vai nutrir, com que quantidades ou que fins".

Há ainda a intenção declarada por parte de Espanha de "estabelecer una zona económica especial com um tratamento fiscal diferenciado para determinadas atividades" para La Línea "poder ter um desenvolvimento equiparável ao de Gibraltar", que para Juan Franco tem de se transformar em realidade.

O presidente da câmara sublinhou ainda outras situações a que deve ser dada resposta e que derivam "da vizinhança com Gibraltar", como o caso dos pensionistas que trabalharam sempre no território britânico, onde as reformas são "muito baixas" e compensadas no lado inglês com ajudas de que só podem beneficiar os residentes na colónia, deixando numa situação complicada os milhares de trabalhadores espanhóis.

Apesar de La Línea sempre ter vivido "ao calor da economia de Gibraltar", o desenvolvimento foi mais lento e desigual, sobretudo depois do fecho total da fronteira entre 1969 e 1982 (para as pessoas) e 1985 (para as mercadorias), na sequência de uma decisão do ditador espanhol Francisco Franco que deixou milhares de pessoas da cidade sem trabalho e levou a um êxodo de dezenas de milhares de habitantes "de um ano para outro".

Em paralelo, nas palavras de Juan Franco, houve "o paradoxo de a inversão do Estado [espanhol] para estabelecer nesta região uma zona próspera ter acabado por se focar nas cidades em redor", como o porto de Algeciras, deixando sem "praticamente nada" o "município muito pequeno" de La Línea, apesar de ser o único que faz fronteira com Gibraltar.

Na próxima meia-noite, quando entrar em vigor o acordo da UE com o Reino Unido, Juan Franco irá à fronteira celebrar com o chefe do executivo gibraltarenho, Fabian Picardo, o fim do posto de controlo e o levantamento da vedação.

Será, como bem sabem Franco e Picardo, ambos nascidos nas cidades que hoje administram e com idades similares, um momento cheio de simbolismo, mas também de alguma emoção.

Não há ninguém vivo que tenha conhecido Gibraltar ou La Línea sem "la verja" ou "a vedação", considerado "o último muro da Europa continental", apesar de a relação entre os moradores de um lado e outro ser "uma questão quotidiana", como explicou Juan Franco: "o cidadão comum o que quer é vir ao ginásio aqui ou ir lá trabalhar".

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