Governador de São Paulo volta a negar acordo com bandidos para pôr fim a ataques

O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, voltou a negar hoje que a polícia tenha feito um acordo com os criminosos para pôr fim aos ataques dos últimos dias em São Paulo.

Agência LUSA /

"Não houve acordo. Não faríamos isso de forma alguma", salientou o governador, durante uma conferência de imprensa em que fez o ponto de situação da recente onda de violência no estado mais rico e populoso do Brasil.

Desde sexta-feira, já foram registados 251 ataques a viaturas, esquadras da polícia, bancos, autocarros e prédios públicos, com um balanço de 154 mortos, entre polícias, suspeitos e civis, e 115 detenções.

A notícia de um suposto acordo para pôr fim aos ataques foi divulgada pelos "media" brasileiros, depois de a advogada da principal facção criminosa de São Paulo ter estado numa prisão no domingo.

Iracema Vasciano foi levada num avião da polícia até a um presídio no interior do Estado de São Paulo para se encontrar com o líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcos Camacho, considerado "o bandido mais perigoso" do Brasil.

"Foi um gesto de boa vontade do governo para tranqüilizar a família do Marcos (Camacho)", limitou-se a dizer a advogada, sem avançar mai pormenores.

"Realizámos este encontro com o único objectivo de preservar a integridade física do bandido", justificou o governador, ao ser questionado sobre a participação da polícia no episódio.

Ataques organizados por facções criminosas no Brasil já ocorreram no passado, mas nunca com a actual dimensão da recente onda de violência em São Paulo.

Para especialistas, isso é sinal de um maior nível de organização e de poder de actuação das quadrilhas organizadas.

Criado em 1993 com o objectivo de combater supostas injustiças dentro dos presídios de São Paulo, o PCC actua como uma associação de criminosos.

A quadrilha planeia assaltos, fuga de reclusos, controla o tráfico de drogas e levanta recursos através da cobrança de uma quantia mensal aos seus associados, em troca da segurança.

Para se tornar membro do PCC, o criminoso tem de ser apresentado por outro criminoso já associado e que se responsabilizará pelas acções do novo integrante.

Os criminosos que estão nos presídios pagam mensalmente 50 reais (18,50 euros) e os criminosos que estão soltos pagam 500 reais (185 euros).

Os recursos são utilizados para aquisição de armas e drogas, além de financiarem acções de fuga de membros da organização que estão presos.

Os líderes da organização, detidos num presídio do interior de São Paulo, conseguem telemóveis através de pagamentos de subornos aos guardas prisionais.

Através desses telemóveis, controlam as acções do grupo do lado de fora dos presídios, segundo informações dos serviços secretos da polícia.

A actual onda de violência, a maior já registada na história de São Paulo, iniciou-se em resposta à tentativa da polícia de isolar os líderes do PCC.

Na quinta-feira passada, 765 presos, entre eles alguns dos principais líderes, foram transferidos para uma prisão de segurança máxima, na cidade de Presidente Venceslau, a 620 quilómetros a oeste de São Paulo.

O presídio já tem "bloqueadores" de telemóveis, o que na prática isola os líderes da quadrilha, evitando assim o planeamento de acções criminosas.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, informou hoje que o governo obrigará as operadoras de telefonia móvel a instalar aparelhos que "bloqueiam" os sinais dos telemóveis dentro de todos os presídios do Brasil.

A Associação Nacional das Operadoras Celulares (Acel), órgão que representa as empresas, divulgou um comunicado em que expressa repúdio e preocupação pelos recentes ataques em São Paulo.

"As operadoras informam que permanecem disponíveis para, em conjunto com as autoridades e instituições envolvidas na questão das telecomunicações no Brasil, colaborar para o encontro de soluções para a actual crise", salienta o comunicado.

A onda de violência também levou aos líderes dos principais partidos políticos no Parlamento a acelerar a aprovação de uma série de projectos de Lei.

A maior parte desses projectos estabelece penas mais severas para os criminosos que matam polícias ou que utilizam telemóveis nas prisões, entre outros.

O controlo do crime por grupos organizados ocorre também no Rio de Janeiro, onde o Comando Vermelho (CV), tido como o mais violento, o Terceiro Comando (TC) e os Amigos dos Amigos (ADA) disputam a venda de drogas.

São comuns as invasões violentas, e quase sempre com mortes, de um grupo de traficantes de uma determinada facção em favelas controladas por um grupo rival.

A venda de drogas tornou-se um negócio lucrativo e essas organizações utilizam modernas armas e tácticas de guerrilha, na disputa do controlo de cerca de 700 favelas do Rio de Janeiro.

São regiões sob controlo dos traficantes, sobretudo nos arredores do Rio de Janeiro, que concentram cerca de um milhão de habitantes, 20 por cento do total de moradores da cidade.

Um recente estudo mostrou que as quadrilhas de traficantes de drogas mantêm cerca de 47.000 armas, entre espingardas, metralhadoras, lança-granadas e metralhadoras ligeiras.

De acordo com dados da polícia, 70 por cento dessas armas chegam ao país através de contrabando terrestre, principalmente com a Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.

Dados do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (Ibiss), uma ONG que estuda a violência urbana brasileira, indica que o tráfico de drogas "emprega" cerca de 7.000 "soldados", muitos deles menores de 18 anos.


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