Governança Progressista defende desfavorecidos contra globalização

A defesa pública dos mais desfavorecidos frente à globalização foi hoje exigida pelos chefes de Estado e governo de centro-esquerda participantes na VI Cimeira da Governança Progressista inaugurada em Balatonoszod, sul da Hungria.

Agência LUSA /

Nesta pequena localidade nas margens do lado Balaton, 140 quilómetros a sul de Budapeste, dirigentes políticos de 11 países dos cinco continentes abordarão, até sexta-feira, temas de uma agenda - informal - centrada nos problemas económicos e sociais ligados à mundialização.

A América-Latina só é representada pelo presidente chileno, Ricardo Lagos, após o cancelamento das deslocações dos seus homólogos argentino, Néstor Kirchner, e brasileiro, Luíz Inácio Lula da Silva.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, começou por propor uma parceria euro-norte-americana para lutar contra as causas mais profundas do terrorismo.

"Nós, progressistas, devemos estar de acordo não só sobre o modo como lidar com o terrorismo e com países que detêm armas de destruição em massa, mas também com a pobreza à escala planetária, com o desenvolvimento sustentado, com o respeito pelos direitos humanos e pelo ambiente, com a democracia e com a paz no Médio Oriente", disse Blair.

Tony Blair, considerado o mais fiel aliado da administração do presidente norte-americano, George W.Bush, insistiu em que a meta por si apontada tem de ser alcançada através da parceria euro-norte- americana e não do confronto: o fim das hostilidades israelo- palestinianas é o primeiro requisito do combate ao terrorismo, acrescentou.

Na quarta-feira, Peter Mandelson, ex-ministro trabalhista designado novo comissário europeu para o Comércio, reconheceu: "O Iraque dividiu o movimento progressista, mas aprendemos a lição de que a doutrina da acção preventiva não deve ser posta em prática se os dados fornecidos pelos serviços de informações forem imprecisos".

Para Blair, nunca antes os valores progressistas foram tão necessários como nos dias que correm: "Vivemos num mundo interdependente, em que os assuntos internacionais têm muito mais impacto sobre a vida dos cidadãos comparativamente a outros tempos", realçou.

E advertiu: a esquerda só poderá impor-se à direita se perceber o futuro e por ele pugnar no terreno.

"A direita e os conservadores conseguem ser muito mais impiedosos do que a esquerda, costumam ter mais dinheiro e ser mais primários nas políticas seguidas", afirmou.

No plano económico, Blair preconizou a abertura e aproximação aos sectores empresariais.

"Creio que a educação e um mercado laboral activo, com preparação e formação dos trabalhadores durante toda a sua vida profissional, superam como modelo social a regulação protectora dos empregos", explicou.

O primeiro-ministro britânico indicou que cabe aos partidos progressistas reformar o "welfare state" (estado social) porque, caso contrário, "a direita tirará partido de apoios para o desmantelar".

No jornal húngaro Nepszabadsag, Blair e o seu homólogo húngaro e anfitrião, Ferenc Gyurcsany, escreveram a propósito: "A Europa precisa de ter uma dimensão social. Mas se as políticas sociais paralisam a economia europeia, podem destruir a criatividade (Ó) e provocar desemprego".

Ambos os estadistas admitiram que um verdadeiro mercado comum, nomeadamente no sector terciário (serviços), "poderia fazer crescer até 1,8 por cento o Produto Interno Bruto (PIB) europeu e gerar milhões de empregos".

Por seu turno, o chefe de estado sul-africano elogiou o "êxito do modelo das ajudas regionais da União Europeia (UE)", que contempla a "transferência de recursos para as zonas mais depauperadas com o objectivo de dinamizar os mercados".

Thabo Mbeki aventou que este modelo seja adoptado em todo o mundo, mediante um compromisso para canalizar recursos para os países em desenvolvimento.

O presidente chileno contrapôs que o problema não está tanto ao nível da transferência de recursos, como da observação de regras:

"São precisas regras justas no comércio, e não ajudas", recalcou.

Como exemplo, Ricardo Lagos - sabendo que Blair advoga a reforma da Política Agrícola Comum (PAC) - disparou: "Quero que as nossas exportações agrícolas possam ser competitivas sem subsídios".

A primeira Cimeira da Governação Progressista teve lugar em 1999 em Washington, sob o patrocínio do então presidente norte- americano Bill Clinton.

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