Governo considera insuficiente o cessar-fogo da ETA
O Governo espanhol declarou que o anúncio de cessar-fogo anunciado Domingo pela organização separatista basca ETA é "insuficiente" e que o grupo armado terá de renunciar definitivamente à violência e iniciar um processo verificável de desarmamento. Reacção idêntica foi a dos principais partidos políticos, que se mostram unânimes ao considerarem o cessar-fogo como "mais uma manobra" por parte da ETA.
Rubalcaba afirmou que a ETA já quebrou no passado demasiados cessar-fogos para que se possa confiar e que o tempo para o diálogo já passou.
"A palavra 'trégua' como conceito para iniciar um diálogo está morta. Isso é o passado", disse Rubalcaba na televisão estatal TVE.
"Creio que a palavra insuficiente reflecte muito bem a posição, não só do Governo, mas de todos os partidos democráticos" adiantou o ministro do Interior.
Alfredo Perez Rubalcaba prosseguiu, dizendo que as exigências do Governo espanhol continuam a ser as mesmas: Que a ETA concorde em depor incondicionalmente as armas e em terminar para sempre a violência e que concorde com um processo que permita verificar essas condições.
O ministro do Interior espanhol garante que as forças de segurança não deixarão de perseguir a organização separatista basca durante o cessar-fogo unilateral por esta declarado. Segundo ele a ETA fez a declaração num momento de "extrema fraqueza" provocada pelos êxitos obtidos pelas autoridades no combate ao grupo.
Partidos parlamentares de acordo com Governo
Opinião idêntica têm os vários partidos á esquerda e à direita do espectro político. No caso do"Partido Popular" (PP) a reacção de desconfiança veio do vice-secretário da politica autonómica.
"No PP já temos experiência dos cessar-fogos e das tréguas por parte da ETA e todas terminaram de forma igual: muito mal para o conjunto da sociedade espanhola", disse Javier Arenas citado pelo jornal El País. "O único comunicado que os espanhóis estão à espera é aquele em que [a ETA] anuncie a sua dissolução e o abandono para sempre das armas", disse.
O responsável do PP considera que essas condições não se produziram e apela ao executivo espanhol para que não baixe a guarda, recordando que a manobra da ETA pode não passar de uma estratégia para facilitar a presença da esquerda nacionalista nas eleições locais de Maio.
Os restantes partidos com assento parlamentar reagiram em tom semelhante. O porta-voz do federação de partidos nacionalistas da Catalunha "Convergència i Unió", Antoni Duran, acredita que por detrás da decisão da ETA apenas há "mais uma manobra" dos terroristas, que devem entregar as armas.
Gaspar Llamazares da "Izquierda Unida" recordou que no passado a ETA sempre aproveitou as tréguas para se reorganizar e insistiu na mesma ideia: "É tempo para a ETA de auto dissolver", disse.
O Partido Nacionalista Basco, numa primeira reacção, que não exclui uma análise posterior mais cuidada, disse que este anúncio "não é o que a ETA deve aos bascos nem aquilo por que eles esperavam".
ETA enfraquecida e sob pressões políticas
Para os analistas a última declaração da ETA deve ser vista no quadro das recentes prisões de numerosos líderes da organização e também pelos revezes em Portugal e em França, onde as autoridades desmantelaram bases operacionais do grupo.
No entanto muitos valorizam ainda mais a pressão dos partidos da esquerda Basca que há semanas vinham apelando a um reatamento do processo de paz e em especial do Batasuna, considerado como ala política da ETA, que desde que foi ilegalizado se vê impossibilitado de participar no processo político e de concorrer a eleições.
Os membros da ala armada teriam agora decidido parar as hostilidades para evitar uma ruptura definitiva com a ala política, que seria fatal para os objectivos da organização.
Na imprensa espanhola faz-se notar que a ETA pode estar a testar as águas a fim de perceber se existem divisões no campo adversário quanto à oportunidade de negociações, para depois justificar a eficácia da estratégia de luta armada seguida até aqui.
Na semântica do comunicado lido no vídeo há quem veja ambiguidade. A ETA mostra-se disponível para negociar com o Governo espanhol "os mínimos democráticos para empreender um processo democrático", uma expressão que o grupo vem utilizando desde os anos oitenta em vez de "processo de paz", e que significa basicamente a independência do Estado Basco.
Os cépticos fazem também notar que além de não dizer que o cessar-fogo é permanente, a organização apenas promete abster-se de "acções ofensivas", o que não deixa claro se vai continuar a realizar acções defensivas (como assassinar um polícia no decurso de um ataque a um banco).
Neste mar de incertezas talvez sejam reveladoras as palavras do operacional da ETA que combinou com o jornalista Clive Myrie da BBC a entrega do vídeo, durante um discreto encontro num café de Londres.
Segundo o operacional, o povo da Catalunha já conseguiu mais autonomia de Madrid do que os bascos, apesar de os nacionalistas catalães não disporem de uma organização armada. Por isso, questionava-se o etarra, não estará a ETA a prejudicar a causa do nacionalismo basco em vez de a ajudar, ao dar ao Governo espanhol pretextos para recusar um referendo à independência da região?