Governo da Índia incapaz de travar violência étnica e religiosa - Crisis Group

O Governo indiano revela-se incapaz de travar violentos confrontos étnicos e religiosos no estado de Manipur, que já fizeram dezenas de milhares de deslocados e mais de 150 mortos, segundo o grupo de reflexão International Crisis Group (ICG).

Lusa /

No início de maio, pelo menos 150 pessoas morreram e milhares ficaram feridas em confrontos entre os grupos étnicos Meitei, maioritariamente hindu, e Kuki, maioritariamente cristão, no estado de Manipur, na fronteira com Myanmar, após uma marcha de solidariedade tribal liderada pelos kuki.

Quando os meiteis organizaram contraprotestos e bloqueios, os confrontos entre estes grupos provocaram episódios de enorme violência, que as autoridades indianas foram incapazes de conter.

Estes confrontos em maio levaram ainda mais de 60.000 pessoas a serem obrigadas a sair das suas casas e a fugir para o estado vizinho de Mizoram, enquanto centenas de casas, locais de culto e veículos foram vandalizados, mulheres foram estupradas e armas foram roubadas do arsenal das Forças Armadas indianas.

"O Governo não conseguiu controlar a situação, apesar de ter tomado medidas drásticas", escreveu Praveen Donthi, analistas sénior para a Índia do ICG, num artigo hoje divulgado no `site` deste `think tank`.

Donthi explicou que todas as tentativas das autoridades para travar os confrontos falharam, incluindo retirar o acesso à Internet, impor o recolher obrigatório e autorizar os magistrados distritais a emitir ordens para as forças de segurança dispararem sobre os manifestantes em "casos extremos".

"Manipur está agora dividida em zonas étnicas exclusivas, com os meitei a serem o grupo dominante, em grande parte hindus, que se concentrou no vale onde fica a capital do estado e onde os kukis, na sua maioria cristãos, vivem em colinas circundantes", explicou o analista do ICG.

Para esta situação contribui o facto de as forças de segurança do Estado indiano, tal como o resto da administração local, ser composta em grande parte por meiteis, mas também estes se sentem segregados pelo poder central indiano.

"Com pouco mais de dois meses de crise, a separação física e emocional das comunidades é total", defende Donthi, que constata o alheamento da comunidade internacional perante esta situação.

"A preocupação internacional com a violência de Manipur foi silenciada até agora, embora em 11 de julho o Parlamento Europeu tenha aprovado uma resolução pedindo ao governo indiano que tome `todas as medidas necessárias e faça o máximo esforço para interromper imediatamente a violência étnica e religiosa em curso`", explicou o analista.

Os meitei representam 53% dos 2,85 milhões de habitantes do estado, de acordo com o censo de 2011, mas ocupam apenas 10% do território, contra os kuki e outras 33 tribos que constituem cerca de 30% da população e estão espalhados pelas zonas montanhosas mais pobres.

O conflito entre os dois grupos dura há várias décadas, provocado por divergências sobre a distribuição de terras e recursos naturais, que alimentaram profundos ressentimentos étnicos.

Manipur é um dos sete estados da região nordeste da Índia, que está ligado ao resto do país por uma estreita faixa de terra à volta do Nepal e do Bangladesh e que se tornou um mosaico de etnias, línguas e culturas.

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