Granada de gás lançada para mesquita era da polícia - Ministro francês

O ministro do Interior francês confirmou hoje que uma granada de gás lacrimogéneo da polícia explodiu na noite de domingo no interior de uma mesquita em Clichy-sous-Bois, onde se registaram distúrbios pela quarta noite consecutiva.

Agência LUSA /

"Isto não quer dizer que tenha sido um disparo feito por um polícia", frisou Nicolas Sarkozy, indicando que está em curso um inquérito para apurar responsabilidades cujos resultados prometeu divulgar.

Vários fiéis daquela mesquita acusaram a polícia de ter lançado a granada durante a oração, enquanto os responsáveis pelo local de culto pediram calma e celeridade nas averiguações.

O ministro deslocou-se hoje à prefeitura de Saint- Denis, em Bobigny, no norte de Paris, para encontrar os polícias e bombeiros que enfrentaram os violentos distúrbios nas últimas noites em Clichy-sous-Bois.

Pela quarta noite consecutiva registaram-se confrontos neste subúrbio parisiense entre bandos de jovens e a polícia de choque, que efectuou várias detenções.

Pelo menos 10 automóveis foram incendiados, bem como caixotes de lixo, e paragens de autocarro vandalizadas por dezenas de jovens que saíram à rua e atiraram projécteis contra os agentes da polícia.

As forças de ordem responderam com balas de borracha e granadas de gás lacrimogéneo e a situação foi considerada normalizada cerca da meia-noite.

Na origem dos distúrbios está a morte, na sexta- feira, de Bouna e Zyed, 15 e 17 anos, respectivamente, electrocutados num transformador eléctrico de alta tensão, onde se refugiaram por alegadamente estarem a fugir da polícia.

No hospital continua internado com queimaduras graves outro jovem que os acompanhava, Metin, de 21 anos, de quem se espera um testemunho esclarecedor sobre as razões por que escalaram o muro de três metros que protegia as instalações eléctricas.

As autoridades francesas negaram desde o início que a polícia tivesse perseguido os três jovens e asseguraram que esta apenas interveio numa tentativa de arrombamento de um barracão num estaleiro de obras, tendo detido temporariamente seis jovens.

Todavia, as contradições logo ficaram evidentes, nomeadamente porque não se encontram naquela área nem o barracão nem um estaleiro de obras, mas apenas um contentor vazio e uns tubos de andaimes no chão, apontados ao jornal Libération pelo advogado das famílias das vítimas, Jean- Pierre Mignard.

No sábado, o procurador de Bobigny, François Molins, recuou na versão de tentativa de roubo e admitiu que a polícia efectuou um "controlo de identidade", mas não perseguiu os três jovens electrocutados.

As famílias dos dois adolescentes mortos, que serão recebidas hoje pelo ministro do Interior, vão apresentar queixa até ao final da semana por "falta de assistência a pessoa em perigo".

O seu advogado interroga-se sobre a razão que terá levado os jovens, que não estavam registados nos serviços da polícia, a escalar um muro de três metros de altura e com arame farpado e esconder-se num sítio perigoso.

Em declarações à televisão LCI, Mignard não põe em causa as investigações policiais em curso, mas defende que "há outras testemunhas, outras questões e confrontações a fazer".

A actuação do governo está a ser alvo de críticas da oposição de esquerda, e o deputado socialista Laurent Fabius responsabilizou o ministro do Interior pelo "ambiente terrível" que se criou naquele subúrbio.

Sarkozy rejeitou as acusações, acusando a esquerda de ter deixado agravar a tensão no passado.

"Há 30 anos que deixam a situação agravar-se em alguns bairros", disse.


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