Grande glaciação do Oligoceno favoreceu mamíferos

A grande glaciação de há 33,5 milhões de anos teve maior impacto do que se julgava no clima das terras que emergiram e favoreceu os mamíferos por resistirem melhor às baixas temperaturas.

Agência LUSA /

Estas são as conclusões de um estudo norte-americano hoje publicado na revista Nature, que estima em 8,2 graus (com margem de erro de 3,1 graus) a queda das temperaturas médias num período de 400.000 anos.

"A importante alteração das temperaturas médias, muito superior à das temperaturas da superfície dos mares nas mesmas latitudes, explica as alterações da fauna, nos gastrópodes, anfíbios e répteis, enquanto que a maioria dos mamíferos da região não foi afectada", explica a equipa de Alessandro Zanazzi (Universidade da Carolina do Sul).

Os investigadores estudaram a distribuição dos isótopos dos oxigénios 16 e 18 no esmalte dentário e em ossadas de antigos mamíferos encontradas nas grandes planícies norte-americanas, o que lhes permitiu estabelecer a proporção entre os dois isótopos na água bebida por esses animais e, por dedução, a temperatura de superfície na época.

A grande transição entre o mundo quente do Eoceno e o mundo frio do Oligoceno é um dos grandes enigmas dos paleontoclimatologistas:

num período relativamente curto, os gelos colonizaram grande parte da Terra, nomeadamente a Antártida, de onde nunca recuaram.

Os estudos científicos tinham-se concentrado até agora no impacto desta glaciação nos oceanos. Os trabalhos de Zanassi, bem como os de uma equipa sino-holandesa dedicados à aridificação do planalto tibetano na mesma época, publicados no mesmo número da Nature, reforçam a teoria de que o arrefecimento teve dimensão planetária.

"Isso implica que uma diminuição do nível de dióxido de carbono (CO2) atmosférico terá sido o motor das alterações nos dois hemisférios", sublinha Gabriel Bowen (Universidade de Purdue) num comentário que acompanha os estudos.

Alguns cientistas explicavam até agora o aparecimento de gelos na Antártida como efeito da deriva dos continentes. O afastamento da América do Sul e da Austrália do continente Antárctico teria, na sua óptica, aberto caminho ao aparecimento da corrente circumpolar, que teria assim isolado climaticamente o pólo sul.

Mas esta tese levantava problemas, e isso porque os modelos informáticos mostraram que o fenómeno teria provocado o aquecimento de todo o hemisfério norte, segundo Bowen.

Os dois estudos publicados na Nature, referentes precisamente ao hemisfério norte, mostram que "o início do Oligoceno foi uma época charneira não só para a Antártida, como para toda a Terra" - escreve o cientista.

"Põem seriamente em causa a hipótese da circulação oceânica (para explicar o arrefecimento do planeta) e implicam que um constrangimento global, como a diminuição na atmosfera das concentrações de gases com efeito de estufa, desempenharam um papel na acumulação de gelo na Antártida", conclui.

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