Guerra na Ucrânia está em impasse, afirma chefe dos serviços secretos

A guerra na Ucrânia está atualmente num impasse, pois nem Kiev nem Moscovo podem fazer progressos significativos, admite o chefe dos serviços secretos ucranianos. O país aguarda por armas mais avançadas por parte dos aliados.

Cristina Sambado - RTP /
Twitter de Kyrylo Budanov

“A situação está simplesmente bloqueada. Não se mexe”, afirmou Kyrylo Budanov à BBC.

Depois de as tropas ucranianas terem reconquistado a cidade portuária de Kherson, no sul do país, em novembro, as batalhas mais complicadas estão agora decorrer em redor de Bakhmut, na região de Donetsk. Por outro lado, as forças russas abrandaram o ritmo das operações terrestres na Ucrânia ao longo dos mil quilómetros da linha da frente.

Segundo Kyrylo Budanov, “a Rússia está atualmente num beco sem saída e a sofrer perdas muito significativas”. No entanto, acrescentou que “as forças ucranianas ainda não dispõem de recursos para avançar em múltiplas áreas”.

“Não podemos derrotá-los em todas as direções de forma abrangente. Nem eles podem. Estamos muito ansiosos por novos fornecimentos de armas e pela chegada de armamento mais avançado”, frisou o chefe dos serviços secretos ucranianos.

No início de dezembro, após uma série de contratempos militares russos, as autoridades ucranianas alertaram para a possibilidade de outra ofensiva terrestre pelas forças de Moscovo posicionadas na Bielorrússia, no início de 2023. Uma ofensiva que poderá incluir uma segunda tentativa de conquistar a capital Kiev.

Segundo Kyrylo Budanov, “recentemente um comboio com tropas russas parou muito próximo da fronteira entra a Ucrânia e a Bielorrússia e regressou, várias horas mais tarde, com todos os militares a bordo”.

“Fizeram-no abertamente durante o dia para que todos vissem”.

No entanto, Budanov não vê “quaisquer sinais de preparação de uma invasão a Kiev ou de áreas a norte da Bielorrússia”.


A entrevista de Kyrylo Budanov à BBC aconteceu dias depois de Vladimir Putin ter viajado para Minsk, a capital da Bielorrússia, pela primeira vez em três anos. Uma visita que suscitou especulações de que poderia tentar persuadir o presidente Alexander Lukashenko, um aliado de longa data, a enviar tropas bielorrussas para a Ucrânia.

A Bielorrússia tem sido usada pelas forças russas como plataforma de lançamento para ataques, mas Budanov acredita que “a população bielorrussa não apoiará qualquer envolvimento na guerra”.

Os analistas têm questionado o nível de preparação do exército bielorrusso de 48 mil militares. “É por isso que o presidente Lukashenko está a tomar medidas para evitar um infortúnio para o seu país”.

Desde a reconquista de Kherson, as forças ucranianas têm estado envolvidas em fortes combates com as tropas russas em redor de Bakhmut, uma batalha de trincheiras que tem sido comparada à I Guerra Mundial.

Para a Rússia, a conquista de Bakhmut iria perturbar as linhas de abastecimento da Ucrânia e abrir uma porta em direção a outros redutos ucranianos no leste, incluindo Kramatorsk e Sloviansk.

Budanov afirmou que a “ofensiva estava a ser liderada pelo Grupo Wagner, um exército de mercenários russos”. Os analistas acreditam que Yevgeniy Prigozhin, fundador do grupo, quer capturar Bakhmut como prémio político, numa altura em há grande rivalidade entre os altos funcionários russos.

Longe dos campos de batalha, a Rússia tem realizado campanhas aéreas implacáveis com mísseis e drones desde outubro, visando, sobretudo, as infraestruturas críticas da Ucrânia e deixando milhões sem eletricidade, aquecimento e água. Bens fundamentais numa altura em que o país enfrenta temperaturas negativas.

Para Budanov, “os ataques vão provavelmente continuar”. Mas considera que a Rússia “não será capaz de sustentar o mesmo nível de ataques devido à diminuição de reservas de mísseis e da incapacidade da indústria russa em reabastecê-los”.

Apesar de o Irão ter fornecido a maioria dos drones usados pelas tropas de Moscovo, o chefe dos Serviços Secretos da Ucrânia afirma que Teerão “se tem recusado a entregar mais mísseis à Rússia, consciente de que os países ocidentais são suscetíveis de impor mais sanções ao país”, além das que já vigoram devido ao programa nuclear iraniano.

A guerra pode estar atualmente bloqueada, mas Budanov é inflexível e acredita “que a Ucrânia acabará por reconquistar todo o território que está sob ocupação, incluindo a Crimeia, península que a Rússia anexou em 2014”.

Budanov prevê o “regresso da Ucrânia às suas fronteiras de 1991, quando a sua independência foi declarada após o colapso da União Soviética”.
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