Guerrilheiros de Casamansa querem independência e envolvimento do Senegal ou cessar-fogo acaba
Bissau, 08 jan (Lusa) - O líder guerrilheiro da região senegalesa de Casamansa, Salif Sadio, quer a independência e o envolvimento do Senegal nas negociações em curso, sob pena de quebra do cessar-fogo, defendeu em entrevista à Voz da América e ao portal PNN.
"Veremos se o Senegal vai continuar a respeitar o seu envolvimento. Caso contrário, as bazucas estão ali", garantiu numa rara entrevista concedida à Voz da América e ao portal PNN, contacto negociado ao longo de oito anos com o jornalista da Guiné-Bissau, Lassana Cassamá.
Com assaltos, sequestros, emboscadas e explosões de minas, o Movimento das Forças Democráticas do casamansa (MFDC) tem reclamado desde 1982 a independência de uma faixa de território do sul do Senegal que faz fronteira com a Guiné-Bissau - território que Portugal trocou com a França no século XVII.
O MFDC anunciou um cessar-fogo no último ano, depois de a Comunidade de Santo Egídeo, uma organização católica italiana, ter iniciado a mediação do conflito, em Roma.
"De facto há negociações com bases sólidas de envolvimento das duas partes [MFDC e Senegal], em Roma, mediadas pela Comunidade de Santo Egídio. Não temos outro mediador", referiu Salif Sadio.
Mas deixa um aviso: "veremos se o Senegal vai continuar a respeitar o seu envolvimento. Caso contrário, as bazucas estão ali", acrescentou o líder do MFDC que ao longo da entrevista faz questão de reafirmar a ambição de autodeterminação do território: não apenas autonomia, mas sim independência.
"Ainda hoje, Casamansa está invadida pelo Senegal. A nossa luta, é a luta de libertação, porque estamos ocupados", salientou.
Ao mesmo tempo, Salif Sadio faz vários apelos à fraternidade, sobretudo com a população da Guiné-Bissau.
"Todos os africanos são um só. Devemos fazer tudo para nos reencontrarmos e viver em paz", destacou, num apelo lançado também às novas autoridades de Bissau, eleitas no último ano.
O líder do MFDC desmentiu que haja membros do movimento instalados em território guineense e que, depois de descobertos, terão estado na origem da exoneração do ministro da Administração Interna da Guiné-Bissau, Botche Candé, em novembro.
"Depois de 2006 saímos da Guiné-Bissau. Os guineenses são nossos irmãos e o Senegal é que quer denegrir o nome do movimento", acrescentou.
"São pessoas manipuladas", sublinhou Salif Sadio.
Às novas autoridades de Bissau, eleitas em 2014, o líder do MFDC pede que promovam a "fraternidade" entre a Guiné-Bissau e o território de Casamansa.
A marcação da entrevista "foi um processo muito complicado", explicou à agência Lusa, Lassana Cassamá, 39 anos, jornalista há 10 e que desde 2006 procurava contactar o líder dos rebeldes.
O jornalista guineense admite que possa ter sido vigiado até lhe ser confiada a possibilidade de realizar a entrevista, que decorreu num local indeterminado para o qual foi conduzido, no meio da floresta, no sul do Senegal, junto à fronteira com a Gâmbia.
"Passei uma fase de um pouco de medo, quando chegaram, por causa das armas e por causa da cara de poucos amigos. Mas depois mostraram-se acessíveis", referiu, ao descrever os homens que rodeavam Salif Sadio.
A maioria sem fardas e com cinturões de munições à vista, estavam equipados com armas pesadas, metralhadoras e outras armas de fogo automáticas, de maior porte.